Terça-feira, 29 de Julho de 2008

EPISÓDIOS E METEOROS
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O feminino ocidental e uma tradição islâmica
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Apesar da imponderabilidade dos seus pontos de partida, a crónica pode e deve ser mordaz, satírica e carregada de humor. Mas nem sempre. Porque há alturas em deve religiosamente bastar-se aos factos, sobretudo quando é preciso sinalizar a realidade que está aí e nos rodeia. Comunicar de maneira sucinta, económica e eficaz tem destas coisas. Dar a ler, dar a ver e até a conhecer, se for o caso, mesmo quando o enunciado que é citado evoca a fé e a possível multiplicidade de leituras. Mas como é um enunciado público e ao dispor de todos – ou seja, como faz parte da realidade acessível – volto a publicá-lo aqui (retirado do livro de El-Bokhâri, L'authentique tradition musulmane – recolha de Hadiths por G.H. Busquet – Sindbad, Paris, 1964, p. 66):

“Segundo Qatada, Anas ben Mâlík contou que o profeta (a ele a bênção e a salvação) dava uma volta conjugal junto das suas esposas apenas no tempo de uma noite e do dia (seguinte), quando elas eram em número de onze. E eu disse a Anas, acrescentou Qatada: ‘Ele era portanto capaz de o fazer? – Nós, respondeu ele, dávamo-nos conta que ele tinha, de facto, a força viril de trinta homens’.”

Estamos no campo das tradições, ou seja, de textos de raiz oral, cuja validade assenta na cadeia de personalidades históricas (isnâd) que as legitimam. São variadíssimas e dizem respeito, no caso do Islão, a todos os aspectos da vida (sem diferença entre aquilo que, no Ocidente, há pouco mas de dois séculos, é o campo religioso e o campo não religioso). Por outro lado, são textos de uma época e de um meio muito concretos e remetem, por certo, alguns deles, para uma expressão hiperbolar (forma de melhor fazer passar alguns aspectos que a fé tem como adquiridas). Neste caso, o excerto insere-se no capítulo IV das tradições recolhidas em antologia por G.H. Busquet (sobre noções de pureza, pudor, descendência e heranças, etc.) e há que saber lê-lo, no mínimo, de modo alegórico.

Mas não há que temer isolá-lo e relê-lo com todo o respeito, sem aquilo que todos os fundamentalismos –
mesmo os que não são religiosos – fazem: encontrar na fuga à ‘interpretação única’ um caso de vida e de morte. Não, no caso deste texto celebra-se a força também material e física de um ser humano que, segundo a fé do Islão, recebeu de Deus a última mensagem de uma longa comunicação entre Deus e o homem. Um homem que, ao contrário de Cristo para os cristãos, era apenas um homem e não Deus.

O feminismo que saiba ler estas palavras como o fundamentalismo não é capaz: sem confundir a realidade do que se diz com o mito que a alimenta. Uma sabedoria essencial para perceber que, no mundo, pode e deve caber bem mais do que se imagina. Mas com um óbvio dom em primeiro lugar: a liberdade.
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EPISÓDIOS E METEOROS
- 94 –

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De Nietzsche a Gondomar: Vá para fora cá dentro!
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Gosto de ler Nietzsche e gosto de ler A Bola. E faço-o quase sempre de modo muito parecido. Sempre que folheio um e outro, salto de página em página e procuro apenas o que me interessa. No primeiro caso, conforme o artigo que estou a escrever; no segundo caso, conforme a motivação que sinto para apurar as novidades do meu clube.
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Mas Nietzsche tem outras coisas de que gosto. E muito. Por exemplo, os termos com que, por vezes, combateu filosoficamente o mundo moderno: “percevejos dengosos”, “tartufismo equitativo”, “trágicos palhaços”, etc. Na mesma página de A Geneologia da Moral onde estes termos são arrolados, o autor também desanca – e bem – nos “anti-semitas”, cuja proliferação (por volta de 1887) ficaria a dever-se ao “…inegável e flagrante estiolamento do exército alemão cujas causas se encontram no regime alimentar exclusivamente composto por jornais, política, cerveja e música de Wagner…”. Lindo.
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Mas hoje trago Nietzsche para dentro da minha crónica por outra razão. Trata-se da abordagem sobre a “má consciência” do homem dito ‘civilizado’ que é desenvolvida no segundo ensaio do livro que acabo de citar. Essa “má consciência” ficaria a dever-se ao facto de a transição do ‘estado selvagem’ para o ‘estado civilizado’ ter sido feita de modo abrupto. Daí que o homem civilizado (técnico, criativo, moral, legal, institucional) se comporte à “maneira dos peixes obrigados a viver em terra”: “acostumados à vida selvagem, à guerra, às correrias e aventuras, viram-se obrigados de repente a renunciar a todos os seus nobres instintos”.
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Uma pessoa lê esta passagem do filósofo e começa realmente a compreender melhor o “Apito Afinal” e o “Apito Dourado”. Como só leio em A Bola aquilo que diz respeito ao meu clube, pouco sei dessa mina inesgotável que faz do futebol um gigante aquário de “peixes obrigados a viver em terra”. Ainda que o mar não chegue a Gondomar ou à futura marina – de belíssima arquitectura, aliás – que vai ser construída junto à Ponte portuense do Freixo. Seja como for, a verdade é que há muita gente que ainda vive intimamente “acostumada à vida selvagem” e que se movimenta num campo onde não consegue colocar de lado “os seus nobres” e antigos “instintos”.
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Talvez seja esta mesma a essência do futebol: uma nobilíssima actividade que dá vantagem a quem esqueça a “má consciência” em nome do prazer boçal de uma guerra sem fim. Uma guerra suicidária, cuja história e utilidade está por escrever. Talvez um dia volte ao tema. Com mais tempo, claro.
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EPISÓDIOS E METEOROS
- 93 –
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Manuela Ferreira Leite e o Marechal Tito
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Toda a gente compreende que a entrada em cena de um novo protagonismo político acabe por trazer consigo uma palavra de ordem também nova e persuadora. Muitas vezes, pouco importa a razoabilidade ou a consistência dessa palavra de ordem. O que interessa é a capacidade que denote para ser ouvida, para motivar e para mobilizar.
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Lembremo-nos da “Foz Côa” de Guterres, da cruzada de Morais Sarmento contra o “Acontece” (da RTP2) ou da encenada afronta de Sócrates aos farmacêuticos. Embora tão diferentes na sua natureza, todas estas palavras de ordem foram concertadas e planeadas, no seu tempo, com o objectivo simbólico de marcar uma atitude, de consolidar uma posição e de ganhar espírito de corpo.
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Manuela Ferreira Leite optou recentemente por uma palavra de ordem que se tem traduzido pelo questionamento das “obras públicas” (em geral), por causa da “nova pobreza”, filha da actual dupla crise (herança do subprime e inflação petrolífera). Há três lados nesta novíssima moeda – espécie de ‘3D’ ainda sem impacto público de bola de neve – que está avidamente a circular entre os discursos de aflição da Silly Season.
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Em primeiro lugar, trata-se de uma palavra de ordem muito geral e abstracta e, portanto, pouco concretizável na forma como tem sido explicada. Ou seja: por muita razão que veicule, é uma palavra de ordem que acaba inevitavelmente por dar o flanco… proporcionando aos adversários políticos uma boa hipótese de desmontagem.
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Em segundo lugar, trata-se de uma palavra de ordem que não se afasta como devia de um intuito algo demagógico, na medida em que é esquemática na sua formulação: ‘salvar a nova pobreza’ versus ‘ostentar com auto-estradas e alta velocidade’. A realidade, parece-me bem, deverá ser mais complexa do que este (tão bem arrumadinho) ‘preto no branco’.
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Em terceiro lugar, trata-se de uma palavra de ordem com lógica, embora, até ao momento, essa lógica não tenha sido devidamente enfatizada. De facto, poderá sempre defender-se que o ambiente financeiro em que os estudos do TGV e outros (mesmo os do novo aeroporto) foram realizados já não é, de modo nenhum, o mesmo ambiente que hoje respiramos. O que suscitaria, como é natural, revisão. Mas este argumento lógico tem andado exilado do ‘discurso de denúncia’ que, inadvertidamente, agora aparece colado ao renovado PSD.
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Há qualquer coisa que não cola entre este ‘espírito de quase voragem’ e o imaginário de serenidade combativa de Ferreira Leite. Tanto mais que a herança de Menezes ou de Santana Lopes implicaria uma demarcação mais substantiva e mais tranquila. Não sei até que ponto a antiga ministra das finanças conseguirá ser o Marechal Tito da nossa Jugoslávia social-democrata.
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EPISÓDIOS E METEOROS
- 92 –

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Metamorfoses lusas: o Género, “Aiata” e o Incêndio
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1- Um caso de Género
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A metamorfose é um campo de grande interesse. Alguns autores abordaram-no no singular (Kafka) e outros no plural (Ovídio). Em Portugal, o tema foi recentemente abordado no masculino e no feminino. Um caso de género, portanto. A primeira das versões pertence a Sócrates que passou a distinguir o Júlio César apunhalado no Senado (da crise internacional) do Júlio César conquistador da Gália (e do défice interno). A segunda versão pertence a Manuela Ferreira Leite que passou a condenar o TGV e outros desvarios menores – como auto-estradas para Bragança ou Beja – para dar algum dinheiro aos pobres. Um “jamés” com novos tons. O debate filogenético da nossa biologia política irá assim intensificar-se no Outono. A coisa promete. Até porque o país, dez anos após a Expo, não quererá ficar atrás de Kafka ou Ovídio.
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2 - “Aiata”
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Se as metamorfoses são coisas extraordinárias da natureza, agora imagine-se o que é um telejornal da TV-I, à hora de almoço de domingo. No ecrã, aparece, a certa altura, um senhor chamado Gonçalves Pereira que explica os motivos do abandono de uma famosa reunião, embora antes tenha instado os demais conselheiros a deporem na “Aiata”. E a “Aiata” foi uma coisa repetida pelo senhor uma dúzia de vezes. A “Aiata” para cá e a “Aiata” para lá. Qualquer pessoa que não percebesse nada de futebol – e do Conselho de Justiça da respectiva Federação –, entenderia logo que o negócio da “Aiata” era um negócio com sede e interesses bem referenciados. Mas como as brincadeiras com a pronúncia são hoje coisa (no mínimo) incorrectíssima, à parte o saboroso divertimento alentejano, o caso da “Aiata” deixou de ser o caso de Pinto da Costa e do Boavista para dar origem a um casulo que ninguém conseguirá decifrar. Ou resolver. Por mim, chamar-lhe-ia o “AiataGate”. Uma metamorfose cheia de graça.
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3 – O incêndio
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Por fim, as chamas a meio da noite. Dirão alguns (com júbilo) que “Lisboa já está a arder”. A metamorfose das metamorfoses. Nem Nero teria pensado com tanta subtileza. Mas o mais patusco, nas reportagens de serviço público, ou melhor, nos grandes debates de “Fórum”, acaba sempre por ser a deontologia do cidadão comum. Aquele que Bordalo Pinheiro desenhou “com a testa e o nariz manchado de prêto pelas dedadas de craião”, como escreveu no seu tempo Ramalho Ortigão. De repente, ei-lo aparecido no ecrã com olhos muito abertos e pronto a ditar a sua sentença: “Isto foram eles que pegaram fogo para ganhar dinheiro à nossa custa”. Por trás, entre a multidão, os telemóveis no ouvido servem para dizer que há um vasto rebanho em directo na TV.
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Moral da história: o “Eles”, o “Sistema” ou o “Jamés” continuam a liderar as metamorfoses lusitanas. Pelos vistos, são ‘eles’ o autor mais desejado deste ameno Verão português.

Quinta-feira, 3 de Julho de 2008

EPISÓDIOS E METEOROS
- 91 –
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O Islão e as minhas heresias
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Transgredir sem dar por isso é um dos mais extraordinários dons do ser humano. Nos seus mundos, animais e plantas sabem bem que a violação de regras é sinónimo de vida ou morte. Entre os humanos, por mais feéricas e rígidas que sejam as leis, existe sempre a deliciosa margem da tentação, mas sobretudo a capacidade de pisar o risco de modo totalmente involuntário. Nem sempre a inocência e a ignorância são causas desse dom transgressor. Muitas vezes é apenas o acaso, a simples errância ou o devaneio. Foi o que aconteceu comigo, já por duas vezes na vida, face a face com o Islão.
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Primeira história: recuemos uns aninhos e entremos, lado a lado, com a minha memória na esplanada das mesquitas. Melhor: entremos no que resta do antigo Templo de Salomão. Em frente, a Mesquita da Rocha e, à direita, a famosa Mesquita de Al-Aqsa. A primeira, a matriz do que viria a ser a história de toda a arquitectura islâmica; a segunda, o berço da tradição do Miraj, ou seja, da ascensão de Maomé aos céus (facto criado pelas tradições orais e não pelo verso cunhado e “recitado” do Alcorão). Deslizo lentamente por este terreno que é, decerto, um dos mais mitológicos do mundo. E, distraído, acabo por entrar nas centenárias portas de Al-Aqsa.
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Até aqui nada de novo. Só que me esqueci de tirar os sapatos. Por trás de mim, ouço subitamente gritos: vozes que quebram o silêncio, vozes que me fazem imaginar espadas em forma de crescente e o rumor daquelas batalhas que, nas profecias da Idade Média, eram reportadas com o sangue a chegar à barriga dos cavalos. Não sei como, mas consigo sair dali do mesmo modo que o sorriso de Adão se terá curvado, um dia, diante dos insondáveis caprichos de Eva. Em minutos, não mais, estou na Via Dolorosa a comer o precioso grão do khumus e a lembrar-me da açorda que se come no Alentejo.
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Segunda história: passo por Vilar Formoso, compro um presunto e entro, dia e meio depois, no meu bairro em Amesterdão. No dia seguinte, vou à rua comercial mais próxima, o Dique de Haarlem (Haarlemerdijk), e, num repente, coloco o presunto de porco sobre o balcão da loja dos meus amigos marroquinos. Após tantos anos de confidências e empatias (para além da óptima azeitona e da alquimia dos coentros), faz-se um silêncio de morte. E eu sem perceber porquê. Até que de um nada (inexplicável) abruptamente se fez luz. Lembro-me que passei o resto dos anos que vivi na Holanda a pedir desculpa.
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A propósito destas incursões meio acrobáticas, devo confessar que nunca mais esqueci um poema de Ibn Sâra de Santarém. Um poema que descreve o olhar de quem vem de fés ou respirações diferentes e entra, sem mais, em aquário alheio: “Olho sempre a tua face com apreensão:/ eras a água clara onde abundam/ os crocodilos”. De facto, nem sempre abundam crocodilos no lago. Como nem sempre há leões na arena. Embora a épica que mais atrai os humanos seja a que é percorrida pela tragédia diária: histórias de leões e crocodilos em sangue, histórias de transgressão involuntária que acabam em contenda, enfim – histórias letais.

Sexta-feira, 27 de Junho de 2008

EPISÓDIOS E METEOROS
- 90 –
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Editado por Fernanda Irene Fonseca, saiu a público, há cerca de um mês, o Diário Inédito de Vergílio Ferreira. Para além de romancista e ensaísta, o autor ficou também conhecido como diarista de fundo, por via sobretudo dos volumes do Conta-Corrente (entre 1980 e 1994). O que não era público até agora era a aventura do diário, ao longo dos anos que sucederam o final da Segunda Grande Guerra Mundial, de 1945 a 1949 (com ligeiro intervalo em 1947).
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A chegada de Vergílio Ferreira a Évora, onde iria viver quase década e meia, domina o diário. Os ecos da vida literária e política do país, neste período conturbado, também ecoam nas pouco mais de cem páginas do volume agora editado pela Bertrand. Mas este diário também acolhe factos pessoais de relevância: o casamento do escritor, o dia dos seus trinta anos e os momentos em que a doença assalta a alarmada consciência do autor de Aparição.
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Há precisamente sessenta anos, no final de Junho de 1948, escrevia Vergílio Ferreira: “É a terceira ou quarta vez que tento o diário. Suponho que desistirei ainda. Tudo e a repugnância de ver o papel que me lê”. Este desafio de blogueador – próprio de quem começa e acaba com a facilidade de uma nuvem que se faz e refaz – é tão livre quanto a revelação que é depois levada a cabo para justificar a própria escrita: “A ironia, essa confissão irresponsável, é o único meio que tenho à mão de condescender em me observar”.
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Ou seja: o “papel” – sim, falamos de um tempo em que se escrevia à mão – parece querer observar o escritor do mesmo modo que o escritor se observa através de uma ironia deliberada. Num trecho de 30 de Junho de 1948, Vergílio Ferreira estabelecerá uma semelhança (panteísta) entre a luz que entra pela janela e a “irresponsabilidade” da confissão que antes designara através da palavra “ironia”:
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“Do alto da galeria da janela pende uma cortina de cassa em pregas fluidas. Com a aragem breve que vem lá de fora, as pregas ondulam abandonadas. A lâmpada apagada roda com o abajur em torno do fio suspenso do tecto. Caio no fundo do sofá e deixo, irresponsável, que a luz quebrada do céu de tarde desça sobre mim, me cubra de sossego.”
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Estes sortilégios dir-se-á ‘rendilhados’ fazem – ou fizeram – o que era, à época, a sacralizada vida de um escritor: um destino ímpar. Veja-se: “Creio que não se fazem obras só com palavras mas também com a própria pessoa do escritor, a sua presença, a sua voz, até a sua gravata. Que são escritores descobertos depois de mortos senão isso mesmo?”. Um destino ímpar em que o escritor surgia em cena como o sacerdote da convulsão moderna. Era este o impasse que caberia a um Vergílio Ferreira de trinta anos quebrar. Um confronto que o existencialismo e a fúria da leitura completavam.
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Estamos tão longe deste “caldo de cultura” (como dizem os pregões televisivos franceses) como do dia em que Henrique VIII disse – “Mate-se!”. A literatura, hoje em dia, é uma natureza exótica e pouco praticada. Confunde-se com a miríade de livros que escala pelos escaparates como mulúsculos nos mercados de Xangai. A coisa que foi a literatura – uma revelação da sociedade e do humano como referência central de vida – encheu o século dezanove e boa parte de novecentos. E hoje olha para nós como uma “ironia” que quase radicalmente nos escapa.
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EPISÓDIOS E METEOROS
- 89 –
O Google, Sócrates e a fragilidade do estado
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Estamos cada vez mais próximos do tempo em que os governantes hão-de googlar para entender o que se passa à sua volta. Mas, de vez em quando, já vai havendo sintomas da nova tentação. Outro dia, no Parlamento, José Sócrates afirmou que tinha reparado na “fragilidade” do estado. O motivo foi uma greve de transportadores que transformou o país num campo electromagnético.
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Quando um Primeiro-ministro lança ao ar um papagaio no areal, o mínimo que se espera é que ele saiba que o papagaio voa. Pois, no nosso caso, parece ter sido tão inocente o “porreiro pá!” que encerrou a presidência portuguesa da União Europeia quanto esta sintomática constatação de “fragilidade”. Afinal, o papagaio voava – disse Sócrates! –, sublinhando a óbvia vulnerabilidade em que parecemos todos deslizar ao sabor do vento.
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Na língua árabe, há uma série de palavras para designar falcão. É normal que uma língua reflicta o meio ambiente em que nasceu e se desenvolveu. Por exemplo, em Português, bluff diz-se de inúmeras formas, embora quase todas rimem com ‘Pomposo’. Veja-se o metro de Mirandela que toda a gente sabe que é o rebaptizar (caro) de linhas-férreas pré-existentes. Veja-se o aeroporto de Beja que toda a gente sabe que é o rebaptizar (caro) de uma base aérea da NATO. Veja-se o ‘património mundial’ que toda a gente sabe que é um rebaptizar cerimonial (e caro) das ‘cidades-museu’. Isto para já não falar do contentamento que dá às populações ver um edifício na terra onde apareça escrita a palavra “Universidade”, mesmo que lá dentro apenas se jogue bridge ou se façam reuniões para discutir o peso de um frango. Isto para já não falar dos clubes de futebol que, à custa dos contribuintes, inflamam a praça pública para mera satisfação tribal ou regional.
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O bluff, a batota ou a auto-ilusão alarve constituem o reverso de uma extrema fragilidade. Sócrates tinha toda a razão. Mas esta fragilidade funciona a vários ritmos e a várias escalas. Lembram-se da ‘Expo-98’? A feira que teve lugar no não menos pomposo “Parque das Nações”? É interessante folhear os jornais da época e ler o que lá está. “Agora é que é de vez!”. “Depois disto, Portugal virou a página e nunca mais será conhecido como o país do fado”. “Voltámos à ‘Idade do Ouro’, mas agora com caravelas feitas de tecnologia”. Etc, etc, etc. Até que… chegou a hora do Euro-2004, justamente porque “já tínhamos mostrado ao mundo” que éramos capazes de atirar papagaios ao ar num areal sem fim.
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E numa manhã, sob nevoeiro, apareceram na praia os transportadores. E houve três dias em que ninguém disse “Ai” nem “Ui”. Nem ‘posição’, nem “oposição”. Nem clero, nem povo, nem nobreza. Nada. E o papagaio voava. Voava muito alto. E tudo se passou entre feriados. Até que, no dia da ressurreição, Sócrates foi ao Google e descobriu o substantivo abstracto “fragilidade”.
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EPISÓDIOS E METEOROS
- 88 –
Da selecção à queda em desgraça do FCP
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A primeira metade da semana que passou foi galvanizada – não dominada – pela queda em desgraça do Futebol Clube do Porto. “Queda em desgraça” é uma expressão forte, eu sei. E o meio do futebol tem tanto de desgraçado quanto de fantástico: um circo que move mundos, afectos e motivos (nem sempre aventurosos) de alguma pertença tribal. Aliás, quando se fala destes temas, há imediatamente o espectro de uma resposta violenta, primária e, no mínimo, chã. Mas não se pense que o futebol é um corpo estranho face à vida do dia-a-dia.
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Bastará rever a constelação eufórica dos emigrantes portugueses em torno da selecção. Bastará rever o contínuo relâmpago mediático em torno dos cachecóis vermelhos e verdes contra o vestígio do que foi a temível frota otomana. Bastará rever o clima de redenção (e de palavras de ordem por vezes alarves) que parecem querer cimentar uma unidade nacional fantasmática. E de sentido único.
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Mas uma desgraça, mesmo se abafada por factos sublimes, nunca vem só: à corrupção (“tentada”) soma-se quase sempre a vitimização, a denegação e o mais amargo dos ressentimentos. À acusação e à polémica que envolve os recursos entre instâncias jurídicas somam-se sempre delações, apelos de teor apocalíptico e solidariedades feirantes. E toda esta serena arruaça se vende muito bem nos jornais. Pelo menos desde Fernão Lopes.
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Ou seja: enquanto Portugal invade a Suíça, num frémito guerreiro que torna as nossas ruas desertas, a “desgraça” do FCP foi remetida para um cantinho de ecrã. No fundo, como algo normal, conhecido e, aparentemente, já há muito esperado e digerido. Só estranhará quem não sai do aquário para se espreitar, a si mesmo, de modo cauteloso e frio.
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O mesmo poderia ter acontecido a outros clubes noutras épocas. Mas não, porventura, do modo como, nos anos oitenta e noventa, a par de uma óbvia organização e determinação – faça-se justiça! –, o clube do Porto fez jus aos fins sem muitas vezes olhar a meios. E o mais incrível é que todo o aparato justiceiro do último mês e meio apenas teve como base a memória de um ou dois jogos e não as muitas centenas de outros… para sempre removidos das “escutas”, dos relatórios e das fiscalizações.
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Pode, pois, dizer-se que o “Rei vai” inteiramente “nu”, tal como o petróleo nos mercados: vale o que vale, enquanto for aceite enquanto tal. Peirce dizia que as verdades eram como as moedas: só as deveríamos aceitar, enquanto ainda valessem alguma coisa. O princípio aplica-se às “desgraças do futebol”, às “expressões fortes”, aos “frémitos guerreiros”, ao preço do crude, à violência recalcada, aos cantinhos do ecrã, aos impérios com pés de barro e a todos os fantasmas que intimem as regras do jogo, as consciências… ou até simples crónicas como esta.
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EPISÓDIOS E METEOROS
- 87 –
Do paternalismo à liberdade
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Para o homem medieval, não se colocava a questão do que era, ou não, a literatura. Bastava-lhe a “Escritura”, ou seja, o verbo que equivalia à salvação. É o homem moderno, depois do fim do século XVIII, que irá colocar, entre muitas outras, a questão da literatura.
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Com efeito, o mundo moderno ocidental foi atravessado por três vagas espessas de escrita literária: a romântica (uma interrogação livre, generalizada e por vezes mística sobre o homem), a realista (uma focagem da vida protagonizada pelo homem à luz das suas novas codificações com destaque para a, às vezes ilusória, noção do "progresso") e a monumental (a reacção em cascata à própria linearidade do moderno, concebida ainda no universo e no tempo do livro: Joyce, Proust, Woolf, James, Kafka, Mann, etc.).
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Após estas três vagas, seguiram-se as desmontagens levadas a cabo no próprio terreno da literatura (o feérico on the road ou o estigma do nouveau roman, por exemplo). Depois, a mitologia televisiva passou a ocupar, a pouco e pouco, a referencialidade do que antes havia sido a expressão literária. Alguns anos mais tarde, não muitos, as imagens fundidas com a hipertecnologia (e com os desmembramento das regras e ideários fixos e ideológicos), acabariam por estruturar toda a nossa vida, relegando a literatura para um local de puro nicho (foi uma travessia rápida, esta última, entre o fim dos anos oitenta e o início do nosso século).
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Como se vê, passaram-se milénios em poucas décadas. De tal modo que, para o homem actual, deixou de haver de vez um problema em torno da literatura. Que grande alívio, dir-se-á. Um alívio sem “Escrituras” e sem suratas ideológicas. Um alívio a saber apenas a alívio. É por isso que, quando hoje leio um texto de ficção, nunca sei realmente se a literatura está a passar por ali, ou se aquilo é já um exemplo – mais um – de um território de onde se apearam, para sempre, fronteiras, géneros e expressões definidas (estou a lembrar-me da curiosíssima apresentação da obra de Gonçalo M. Tavares, tal como surge enunciada nos seus próprios livros).
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Eu gosto de um mundo assim: rasgado na tentação da permanente descoberta e não baseado no assentimento prévio e dado. Atrai-me mais a multiplicidade e a interrogação e menos as sacralizações e todas as sublimações (ideológicas, literárias ou outras) que as sucederam. O mundo, tal como o entendemos hoje, já não é o mundo em que Aquilino, Torga ou Vergílio Ferreira eram ouvidos como dignos senadores do nosso imaginário. Um alívio para eles. E para nós também.
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Neste tempo de crise, há reflexões que confirmam, mesmo em áreas aparentemente exteriores ao mercado do petróleo ou aos impactos do subprime, que passámos a viver num universo sem quaisquer receitas paternalistas. O alívio que tal pressupõe é, também, por outro lado, uma imensa importunidade. Um arrepio quase sem rede. É por isso que, nesta novíssima corrente de ar, se joga essencialmente a liberdade. A capacidade radical de saber inventar. Um desafio que os românticos já haviam colocado na agenda, de modo decidido, e, por vezes, com sadia e suma ingenuidade. Sigamos-lhe o exemplo.
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EPISÓDIOS E METEOROS
- 86 –
O plágio de um dos meus romances
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Os blogues são um mundo curioso. O meu fascínio por esta expressão muito pessoalizada (em tempo de aparente impessoalidade) levou-me, há cinco anos, a criar um blogue e, mais tarde, a escrever um livro sobre as novidades que o meio trouxe à comunicação contemporânea.
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Vem esta introdução a propósito de um comentário que li a um texto meu publicado, por convite de Sofia Bragança Buchholz, no blogue “31 da Armada”. Já devo ter lido milhares de comentários no meu blogue e em muitos outros. O espaço de comentário, na nossa galáxia de interacções – mesmo aqui no Expresso Online –, é um campo corrosivamente imponderável onde tudo se torna possível: desde a mais cândida beleza aos lances de cariz terrorista. Os limites de actuação, nos comentários, independente do anonimato, correspondem aos limites que cabem na nossa natureza humana.
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Mas houve algo de muito diferente no comentário que li no blogue “31 da Armada”. Não é todos os dias que alguém propõe uma campanha de solidariedade à minha própria pessoa, sendo eu vítima de algo que desconheço na totalidade. Ora leia-se:
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“Apelo a todos para uma grande onda de solidariedade com Luís Carmelo que está a ser vítima de um plágio vergonhoso e descarado. Acaba de entrar no mercado português um livro chamado ‘A Fenda’, título decalcado de uma obra de Carmelo já com vários anos e inclusivamente adaptada ao cinema. É preciso tomarmos todos consciência do modo como frequentemente são ignominiosamente violados os direitos de autor no nosso país. Como é possível uma autora qualquer, de repente, escrever um livro de qualidade discutível e dar-lhe o título de uma obra já existente?”
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Ainda não li o livro que o leitor do “31 da Armada” refere (por sinal, o simpático leitor identificou-se, não com o nome, mas com a expressão “Ser não identificado por falta de perfil na net ou por razões bem piores”). Interessantíssimo. Seja como for, o solene aviso leva-me a tecer umas brevíssimas considerações:
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Várias vezes, ao ser entrevistado por causa do meu romance A Falha (1998), vi e ouvi jornalistas a repetirem o mesmo lapso: pronunciavam “Fenda” em vez de “Falha”. Uma falha fascinante e persistente. Quer isto dizer que há proximidade sensitiva e significativa entre ambos os títulos, embora os termos sejam diferentes. Não vejo que venha mal algum ao mundo, se o romance agora aludido utilizar a palavra “Fenda” no título. Até porque seria muito difícil reatar um argumento que se baseia num ponto de partida clássico – um reencontro entre pessoas que já foram íntimas – e num desenvolvimento posterior, aberto à turbulência, ao acidente e à desmontagem trágica dessa intimidade. Diria ainda que é impossível plagiar um ambiente de escrita e uma poética. Ou seja: nem eu seria capaz de rescrever o meu próprio romance, porque já estou irremediavelmente afastado dos ingredientes que o viram nascer, no meu escritório, em finais de 1996.
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Agradeço a amável intenção do senhor que dá pelo nome de “Ser não identificado por falta de perfil na net ou por razões bem piores”. Mas não estou angustiado. Absolutamente nada. Vivemos uma vida inteira para percebermos o que é uma buganvília. E isso já é muito, confesso. Os blogues têm-me ajudado a compreender – com mais clareza – esta quase verdade.

Segunda-feira, 26 de Maio de 2008

EPISÓDIOS E METEOROS
- 85 –
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Mann, Viconti e o caso Casa Pia
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Há uma dúzia de anos, Eduardo Prado Coelho foi convidado a escrever um dos textos mais marcantes do projecto de Leonel Moura, “Portugal Século XX - 50 rostos para uma identidade” (patrocinado pelo Público). A personalidade acolhida pelo ensaísta foi Herman José a quem então foi atribuída a rara capacidade de “teatralizar o quotidiano”, o “estupendo sentido de metamorfose” e a “desenvoltura irreverente” sempre “capaz do golpe de génio e da invenção mais improvável”. Prado Coelho concluía referindo que Herman José se tinha tornado “numa personalidade central da vida portuguesa, talvez a mais famosa” (entre as que tinham uma dimensão nacional).
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O mais curioso é que entre os dois grandes actos falhados do milénio português, ou seja, a saída de Guterres (por causa de um pântano sem fim) e a saída de Durão Barroso (por causa de uma luz sem fim que ardia na Grand Place) tudo mudou. Não foi apenas Herman ou Carlos Cruz que, de modos diversos, viriam a cair em desgraça, mas toda uma engrenagem até hoje pouco desvelada. E quando escrevo a palavra “engrenagem” não me refiro apenas a fait divers sujeitos à exaustão mais pérfida.
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Não me estou, por exemplo, a referir à fusão a frio entre Ferro Rodrigues, a “teoria da cabala” e a suma recompensa no altar da Unesco. Não me estou, por exemplo, a referir à saída de Paulo Pedroso da prisão e ao êxtase vivido no Parlamento, naquilo que terá sido o momento mais abjecto da Casa da Democracia, após o cerco de finais de 1975. Nem me estou seguramente a referir aos momentos mais negros da blogosfera (o blogue “Muito Mentiroso”), ou às tricas (por vezes paródicas) entre Santana e Sampaio que acabariam em clímax cinco dias após o início do julgamento do caso Casa Pia, no Tribunal da Boa-Hora (25/11/04).
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Quando soletro muito devagar a palavra “engrenagem”, estou sobretudo a tomar consciência de que muito mais mudou. E de modo particularmente vincado. Tive a plena consciência desse facto, quando, no sábado passado, revi o clássico Morte em Veneza de Visconti (1971), baseado na obra homónima de Thomas Mann (1912). Devo dizer que este filme se cruzou intensamente com a minha vida, nas décadas de setenta e oitenta, e que um dos meus primeiros romances (o terceiro: No Príncípio era Veneza – 1990), escrito em boa parte no local da cena, imaginava, entre outras coisas, uma segunda rodagem do filme. E declaro, desde já, para os devidos efeitos, que a intensidade da obra de Visconti tinha, à época, a sua origens em vínculos estéticos puros e em nada mais.
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Com efeito, o sublime e o arrojo estético de Visconti bastavam para absorver e emocionar quem, há uns anos, mergulhasse nesse filme. E jamais as atracções platónicas entre um homem mais velho e um menino pré-adolescente se traduziram no modo permissivo (ou ‘não permissivo’) de encarar o que passou a topoi no pós-caso Casa Pia: a pedofilia. Quer isto dizer que a engrenagem cultural mais profunda trouxe para o mainstream o que antes se ofuscava radicalmente, dando novo significado ao que até aí era arte pura. É por isso que o Morte em Veneza de sábado passado deixou de ser o que era. Confesso que não fui capaz – pela primeira vez – de ver o filme como antes o via. Ninguém, de facto, resiste aos julgamentos do seu tempo. Nem Herman, nem Prado Coelho, nem eu, nem ninguém.

Sábado, 17 de Maio de 2008

EPISÓDIOS E METEOROS
- 84 –
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Saramago e Pinto da Costa: o mesmo mito
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Os mitos não são coisas do passado. Tal como as nuvens, os mitos estão sempre a reaparecer e a transformar-se. E nem sempre são encarnados por personalidades previsíveis. Por outras palavras: a mitologia passeia-se melhor em protagonistas vincados, polémicos e que dividem rebanhos como quem pega fogo a metade do mundo. O mito nada tem que ver com a razão, nem tem um rosto fixo que possa ser descrito de alto a baixo. No entanto, as pessoas precisam de mitos como o mar precisa das suas espécies. E eis como o que aparenta ser distante e mesmo irreconciliável se torna, na arena dos mitos, como algo que se aproxima quase intimamente. É por isso que Saramago e Pinto da Costa são, de algum modo, pilotos da mesma nave. Vejamos porquê:
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Fantasias históricas
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Toda a performance de Pinto da Costa é atravessada por uma pretensa questão fundacional: como se a “História” fosse uma régua rigorosamente linear, o Norte impor-se-ia ao Sul mouro e as virtudes originais de um contrastariam com as corruptelas da arraia menor (conquistada) do outro. Uma rivalidade fantasiosa que só é vista e entendida no lado de quem a imagina. No caso Saramago, a questão postulada é a ibérica. Não a Norte-Sul e fundacional, mas a que perpassa a sobrevivência do país ao longo de séculos. Para os patrioteiros e para os continuadores doentios do tempo dos “Vencidos da Vida”, a fractura voltou a expor-se. Quer Saramago, quer Pinto da Costa adoram expor as fracturas. Com grande ostensão. Diria mesmo: com algum exibicionismo.
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Apego tribal
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À ideia seminal de região, no caso de Pinto da Costa, corresponde, em Saramago, um outro tipo de região: a ideológica. Uma e outra são esquemáticas, razoavelmente a ‘preto e branco’ e tendencialmente viradas para a criação de exclusões naturais. Há sempre os “de fora” e os “de dentro” do campo que é apregoado. Um tal maniqueísmo entre os que estão “contra” e os que estão “a favor” é o alicerce, para não dizer a essência, de ambas as mitologias.
Ressentimentos vários
No caso Saramago, foi a idiotice de um governo de Cavaco que lhe deu o pretexto para a queixa sem fim. Precisa dela como água no deserto. Questão de marketing, como se diz em certos meios. No caso Pinto da Costa, a questão é mais endémica: o modo de afirmação do dirigente portista tem como base a necessidade de demonstrar que consegue superar uma perseguição também sem fim. E o objecto perseguidor pode variar, embora tenha que ser omnipresente e todo-poderoso: os media, Lisboa, a justiça, etc.
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Domínio dos meios
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‘Não olhar a meios’: eis um lema muito repetido. No caso do mundo futebolístico, a procissão está sempre no adro e a disputa passa por todo o lado e não apenas pelo relvado. Tudo e todos, incluindo a inércia dos tribunais, legitimam este perene estado de coisas. Em Saramago o lóbi é mais sereno… até porque a literatura se vê a si própria – agora já vai acontecendo menos, felizmente – como algo quase sagrado. Um nobel só é nobel por denotar inevitáveis qualidades e, também, por se inserir num imenso mar de influências. Nem sempre essa influência coincide com a arbitragem certa, mas avizinhar-se-á dela. Resumindo: quer Pinto da Costa, quer Saramago são hábeis nos tabuleiros dos respectivos jogos. Habilidades que transcendem (e de que modo) a natureza dos próprios jogos jogados.
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Mitos do amor
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O clímax destes vários paralelismos, caro leitor, está, de facto, na tradição mais fecunda da espécie. Repare-se: se Saramago herda o mito do amor eterno, cortês e nobre (o tabu de Inês de Castro vs. Pilar – ambas ‘não portuguesas’ – é evidente), já os folhetins de Pinto da Costa, que incendeiam o país com um fogo mais visceral e menos subtil, reflectem a tradição medieval de uma cidade onde a nobreza não podia entrar (salvo com autorização especial): o Porto. De um lado, o amor proibido e imposto como destino; do outro lado, o amor errante e popular… imposto como forma de inconformismo e de irascibilidade.
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Enfim: dois Portugais, mas os mesmíssimos mitos. A mesma respiração transfigurada.

Sábado, 10 de Maio de 2008

EPISÓDIOS E METEOROS
- 83 –
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or vezes, comparo as imagens de Frida Kahlo aos fantasmas que se passeiam pelas nossas cabeças. A pintora mexicana deixou no imponderável da sua arte a ideia de vitimização (por vezes satírica), de denúncia sarcástica ou de impotência quase irónica. Em linguagem de Rafael Bordalo Pinheiro, a arte de Frida teria espelhado sobretudo o logro das “esperanças vãs”, tal como cantava António Mourão na época em que o tempo ainda “voltava para trás”.
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Só que hoje o tempo deixou de “andar” e de “voltar para trás”: apenas emerge, explode e calcorreia a sua sina de instantaneidade. E o sentimento misto de vitimização, denúncia e impotência deixou de ter uma moeda de troca precisa. Por uma simples razão: estamos a viver uma revolução que abandonou – felizmente – a propensão ideológica de transformar o mundo para passar a abraçar a comunicação pela comunicação nesse fiat que, em cada ápice, liga a nossa liberdade (possível) aos acenos da tecnologia. Nunca uma revolução foi tão profunda, intensa e, ao mesmo tempo, tão invisível. É por isso, também, que a nossa sociedade se ressente com alguns fenómenos a que não sabe ainda como responder. E que, geralmente, silencia. E mortifica.
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Por exemplo: tente acabar com a assinatura da TV Cabo. Eu conto uma experiência minha recente. Primeiro, apareceu uma senhora (com voz de Tágide simpática) que me encaminhou para um serviço dito “adequado”. Depois, uma outra senhora ouviu a minha pretensão. E, claro, que não lhe deu seguimento. Ao invés, perguntou mil coisas à moda de Poirrot, uma delas realmente desconcertante: “Mas, se abandonar esse (…) apartamento, sabe quem o virá ocupar a seguir? Não estaria o novo (…) inquilino interessado em manter os nossos serviços?”. Já terão passado quinze minutos e – após nova espera musical (com o objectivo de fazer crescer a impaciência) – a mesma voz pede-me, finalmente, que escreva uma carta à TV Cabo a “requerer o desligamento do serviço”. Antes de conseguir terminar a conversa, há ainda tempo para ouvir uma litania doce que me tenta dissuadir (à moda dos pastores protestantes) e que propõe novos “produtos”. Após quarenta e dois minutos de suave tortura – um rombo no meu telemóvel –, saio de casa e faço seguir a carta pelo correio.
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Corre o dia 25 de Março e escrevo na minha agenda o que então ficou acordado: em Abril já não haverá factura e, no início de Maio, poderei suspender o “débito directo”. Só que a TV Cabo não está pelos ajustes. Ao longo do mês de Abril, recebo no meu telemóvel três SMS (que rezam mais ou menos assim): “Ainda não conseguimos dar seguimento à sua pretensão”. No dia 2 de Maio, verifico que não foram desligados os canais da TV Cabo e confirmo que tudo o que havia solicitado (num acto da minha livre vontade) foi ignorado de modo ostensivo e deliberado. Preparo-me agora a próxima etapa deste processo kafkiano: vou ao banco, cancelo o débito directo e, como já aconteceu há uns anos sem que absolutamente nada o justificasse, aguardarei que um advogado menor – a quem a TV Cabo confiará alguma “cobrança de dívida” – comunique comigo. Uma beleza.
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É profundamente lamentável que, numa sociedade estruturada para a salvaguarda e garantia das liberdades, haja espaço para entidades que se sentem no céu. E que apoiadas na sua engenharia impessoal, fabricada em call centers, se recostem num trono divino imune à intrusão, ao cumprimento da palavra e sobretudo ao contraditório. E a verdade é que este novo modo (de esmagamento do outro) que relega o querer dos simples mortais para o vácuo… morre quase sempre no anonimato mortificado de cada um. Até quando? Frida Kahlo e António Mourão abanam os ombros. Não sabem. E eu, sinceramente, também não. Silenciado, ou quase.
EPISÓDIOS E METEOROS
- 82 –
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A política em Portugal
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Geralmente, as notícias dão-nos a ver a agenda diária através de contrastes: como se um mar se tivesse subitamente aberto. No entanto, trata-se sempre de um maremoto que não tem o peso de um maremoto real. Pouco do que se representa na cena causa dano ou compaixão trágica, mas antes um suceder de acções que cabe na beleza do ridículo, ou seja: no embaraço, no confronto fantasmático ou no acto falhado que se pressente quase sublime (aquele Coliseu no dia 25 de Abril…).
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São cenários que nos apresentam as mais variadas figuras e criaturas. Mas, de um momento para o outro, parece que se excluem do quadro para que foram pensadas. A cena passa então a ser uma oscilação entre cenas. E é nessa quase sobreposição de pequenos actos que o desconcerto melhor se revela: como um biombo que se desvia e põe a nu aquilo que tapava, mas também aquilo que jamais pensou encobrir (Patinha Antão, por exemplo). Uma mudança de estado cenográfica que põe o código aos trambolhões. Melhor: uma cenografia que já não cabe em si, de tão excessiva que é (Marcelo e os seus “mínimos”, por exemplo).
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As pequenas narrativas que cruzam a narrativa maior surgem de modo galopante. As partes cruzam-se como dois navios num porto ermo e solitário: como se se confundissem um no outro (Jerónimo e Louça, por exemplo). Sem dor, sem desastre e sem desfocagens no campo de visão: é isso mesmo o ruído, a redundância. Para ilustrar os desacatos evocados, o jogo de palavras exprime o artifício, a cilada fina e o ardil. Face à simulação de encarceramento, o riso transforma-se em atitude de defesa ou em resistência intuitiva. É por isso que gosto de ver Carvalho da Silva a ser entrevistado no dia 1 de Maio.
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De vez em quando, notam-se quebras de sequência. E o cidadão – que segue o curso de uma personagem – questiona: para onde iria? De onde viria? Mas, abruptamente, é como se isso tudo deixasse de interessar. A quebra de rotina torna-se então em episódio único e em prazer próprio. Algo que surge inadvertidamente e que do inadvertido se alimenta (Santana Lopes, nestes casos, não tem rival).
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E na cena que se relata, há ainda um momento em que o feitiço parece desfazer-se. Como se reencontrasse o fio do seu próprio desconcerto. A cena parece evocar Eça. Sim: Eça falou do ócio em quase toda a sua obra. O nosso mais fiel escritor sempre escreveu sobre o mundo frugal em que as personagens se referem a gestas e afazeres alheios, mas onde o que conta verdadeiramente é o quadro vivo onde se move a cupidez, a inveja menor, a intriga, o desejo contido, o egoísmo e o acacianismo como causa e repetição ilimitadas. No fundo, Eça riu-se do mundo que melhor conheceu, do ambiente, de si próprio. E fê-lo entre o idílio cosmopolita e a sala de estudo arranjada por Jacinto – ou seria por Alberto João Jardim? –, que tinha a um canto um molho de varapaus e no ar um intenso cheiro a favas.
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Ao rir-se do seu universo, Eça ria-se de todos os nossos fantasmas actuais. Até da estria contida do nosso Primeiro-Ministro. Porque o espalhafato de hoje é o risível de ontem. E de sempre.