EPISÓDIOS E METEOROS
- 95 –
e
O feminino ocidental e uma tradição islâmica
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O feminino ocidental e uma tradição islâmica
de
Apesar da imponderabilidade dos seus pontos de partida, a crónica pode e deve ser mordaz, satírica e carregada de humor. Mas nem sempre. Porque há alturas em deve religiosamente bastar-se aos factos, sobretudo quando é preciso sinalizar a realidade que está aí e nos rodeia. Comunicar de maneira sucinta, económica e eficaz tem destas coisas. Dar a ler, dar a ver e até a conhecer, se for o caso, mesmo quando o enunciado que é citado evoca a fé e a possível multiplicidade de leituras. Mas como é um enunciado público e ao dispor de todos – ou seja, como faz parte da realidade acessível – volto a publicá-lo aqui (retirado do livro de El-Bokhâri, L'authentique tradition musulmane – recolha de Hadiths por G.H. Busquet – Sindbad, Paris, 1964, p. 66):
“Segundo Qatada, Anas ben Mâlík contou que o profeta (a ele a bênção e a salvação) dava uma volta conjugal junto das suas esposas apenas no tempo de uma noite e do dia (seguinte), quando elas eram em número de onze. E eu disse a Anas, acrescentou Qatada: ‘Ele era portanto capaz de o fazer? – Nós, respondeu ele, dávamo-nos conta que ele tinha, de facto, a força viril de trinta homens’.”
Estamos no campo das tradições, ou seja, de textos de raiz oral, cuja validade assenta na cadeia de personalidades históricas (isnâd) que as legitimam. São variadíssimas e dizem respeito, no caso do Islão, a todos os aspectos da vida (sem diferença entre aquilo que, no Ocidente, há pouco mas de dois séculos, é o campo religioso e o campo não religioso). Por outro lado, são textos de uma época e de um meio muito concretos e remetem, por certo, alguns deles, para uma expressão hiperbolar (forma de melhor fazer passar alguns aspectos que a fé tem como adquiridas). Neste caso, o excerto insere-se no capítulo IV das tradições recolhidas em antologia por G.H. Busquet (sobre noções de pureza, pudor, descendência e heranças, etc.) e há que saber lê-lo, no mínimo, de modo alegórico.
Mas não há que temer isolá-lo e relê-lo com todo o respeito, sem aquilo que todos os fundamentalismos –
mesmo os que não são religiosos – fazem: encontrar na fuga à ‘interpretação única’ um caso de vida e de morte. Não, no caso deste texto celebra-se a força também material e física de um ser humano que, segundo a fé do Islão, recebeu de Deus a última mensagem de uma longa comunicação entre Deus e o homem. Um homem que, ao contrário de Cristo para os cristãos, era apenas um homem e não Deus.
O feminismo que saiba ler estas palavras como o fundamentalismo não é capaz: sem confundir a realidade do que se diz com o mito que a alimenta. Uma sabedoria essencial para perceber que, no mundo, pode e deve caber bem mais do que se imagina. Mas com um óbvio dom em primeiro lugar: a liberdade.
Apesar da imponderabilidade dos seus pontos de partida, a crónica pode e deve ser mordaz, satírica e carregada de humor. Mas nem sempre. Porque há alturas em deve religiosamente bastar-se aos factos, sobretudo quando é preciso sinalizar a realidade que está aí e nos rodeia. Comunicar de maneira sucinta, económica e eficaz tem destas coisas. Dar a ler, dar a ver e até a conhecer, se for o caso, mesmo quando o enunciado que é citado evoca a fé e a possível multiplicidade de leituras. Mas como é um enunciado público e ao dispor de todos – ou seja, como faz parte da realidade acessível – volto a publicá-lo aqui (retirado do livro de El-Bokhâri, L'authentique tradition musulmane – recolha de Hadiths por G.H. Busquet – Sindbad, Paris, 1964, p. 66):
“Segundo Qatada, Anas ben Mâlík contou que o profeta (a ele a bênção e a salvação) dava uma volta conjugal junto das suas esposas apenas no tempo de uma noite e do dia (seguinte), quando elas eram em número de onze. E eu disse a Anas, acrescentou Qatada: ‘Ele era portanto capaz de o fazer? – Nós, respondeu ele, dávamo-nos conta que ele tinha, de facto, a força viril de trinta homens’.”
Estamos no campo das tradições, ou seja, de textos de raiz oral, cuja validade assenta na cadeia de personalidades históricas (isnâd) que as legitimam. São variadíssimas e dizem respeito, no caso do Islão, a todos os aspectos da vida (sem diferença entre aquilo que, no Ocidente, há pouco mas de dois séculos, é o campo religioso e o campo não religioso). Por outro lado, são textos de uma época e de um meio muito concretos e remetem, por certo, alguns deles, para uma expressão hiperbolar (forma de melhor fazer passar alguns aspectos que a fé tem como adquiridas). Neste caso, o excerto insere-se no capítulo IV das tradições recolhidas em antologia por G.H. Busquet (sobre noções de pureza, pudor, descendência e heranças, etc.) e há que saber lê-lo, no mínimo, de modo alegórico.
Mas não há que temer isolá-lo e relê-lo com todo o respeito, sem aquilo que todos os fundamentalismos –
mesmo os que não são religiosos – fazem: encontrar na fuga à ‘interpretação única’ um caso de vida e de morte. Não, no caso deste texto celebra-se a força também material e física de um ser humano que, segundo a fé do Islão, recebeu de Deus a última mensagem de uma longa comunicação entre Deus e o homem. Um homem que, ao contrário de Cristo para os cristãos, era apenas um homem e não Deus.
O feminismo que saiba ler estas palavras como o fundamentalismo não é capaz: sem confundir a realidade do que se diz com o mito que a alimenta. Uma sabedoria essencial para perceber que, no mundo, pode e deve caber bem mais do que se imagina. Mas com um óbvio dom em primeiro lugar: a liberdade.
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EPISÓDIOS E METEOROS
- 94 –
ee
De Nietzsche a Gondomar: Vá para fora cá dentro!
- 94 –
ee
De Nietzsche a Gondomar: Vá para fora cá dentro!
d
Gosto de ler Nietzsche e gosto de ler A Bola. E faço-o quase sempre de modo muito parecido. Sempre que folheio um e outro, salto de página em página e procuro apenas o que me interessa. No primeiro caso, conforme o artigo que estou a escrever; no segundo caso, conforme a motivação que sinto para apurar as novidades do meu clube.
d
Mas Nietzsche tem outras coisas de que gosto. E muito. Por exemplo, os termos com que, por vezes, combateu filosoficamente o mundo moderno: “percevejos dengosos”, “tartufismo equitativo”, “trágicos palhaços”, etc. Na mesma página de A Geneologia da Moral onde estes termos são arrolados, o autor também desanca – e bem – nos “anti-semitas”, cuja proliferação (por volta de 1887) ficaria a dever-se ao “…inegável e flagrante estiolamento do exército alemão cujas causas se encontram no regime alimentar exclusivamente composto por jornais, política, cerveja e música de Wagner…”. Lindo.
d
Mas hoje trago Nietzsche para dentro da minha crónica por outra razão. Trata-se da abordagem sobre a “má consciência” do homem dito ‘civilizado’ que é desenvolvida no segundo ensaio do livro que acabo de citar. Essa “má consciência” ficaria a dever-se ao facto de a transição do ‘estado selvagem’ para o ‘estado civilizado’ ter sido feita de modo abrupto. Daí que o homem civilizado (técnico, criativo, moral, legal, institucional) se comporte à “maneira dos peixes obrigados a viver em terra”: “acostumados à vida selvagem, à guerra, às correrias e aventuras, viram-se obrigados de repente a renunciar a todos os seus nobres instintos”.
d
Uma pessoa lê esta passagem do filósofo e começa realmente a compreender melhor o “Apito Afinal” e o “Apito Dourado”. Como só leio em A Bola aquilo que diz respeito ao meu clube, pouco sei dessa mina inesgotável que faz do futebol um gigante aquário de “peixes obrigados a viver em terra”. Ainda que o mar não chegue a Gondomar ou à futura marina – de belíssima arquitectura, aliás – que vai ser construída junto à Ponte portuense do Freixo. Seja como for, a verdade é que há muita gente que ainda vive intimamente “acostumada à vida selvagem” e que se movimenta num campo onde não consegue colocar de lado “os seus nobres” e antigos “instintos”.
d
Talvez seja esta mesma a essência do futebol: uma nobilíssima actividade que dá vantagem a quem esqueça a “má consciência” em nome do prazer boçal de uma guerra sem fim. Uma guerra suicidária, cuja história e utilidade está por escrever. Talvez um dia volte ao tema. Com mais tempo, claro.
Gosto de ler Nietzsche e gosto de ler A Bola. E faço-o quase sempre de modo muito parecido. Sempre que folheio um e outro, salto de página em página e procuro apenas o que me interessa. No primeiro caso, conforme o artigo que estou a escrever; no segundo caso, conforme a motivação que sinto para apurar as novidades do meu clube.
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Mas Nietzsche tem outras coisas de que gosto. E muito. Por exemplo, os termos com que, por vezes, combateu filosoficamente o mundo moderno: “percevejos dengosos”, “tartufismo equitativo”, “trágicos palhaços”, etc. Na mesma página de A Geneologia da Moral onde estes termos são arrolados, o autor também desanca – e bem – nos “anti-semitas”, cuja proliferação (por volta de 1887) ficaria a dever-se ao “…inegável e flagrante estiolamento do exército alemão cujas causas se encontram no regime alimentar exclusivamente composto por jornais, política, cerveja e música de Wagner…”. Lindo.
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Mas hoje trago Nietzsche para dentro da minha crónica por outra razão. Trata-se da abordagem sobre a “má consciência” do homem dito ‘civilizado’ que é desenvolvida no segundo ensaio do livro que acabo de citar. Essa “má consciência” ficaria a dever-se ao facto de a transição do ‘estado selvagem’ para o ‘estado civilizado’ ter sido feita de modo abrupto. Daí que o homem civilizado (técnico, criativo, moral, legal, institucional) se comporte à “maneira dos peixes obrigados a viver em terra”: “acostumados à vida selvagem, à guerra, às correrias e aventuras, viram-se obrigados de repente a renunciar a todos os seus nobres instintos”.
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Uma pessoa lê esta passagem do filósofo e começa realmente a compreender melhor o “Apito Afinal” e o “Apito Dourado”. Como só leio em A Bola aquilo que diz respeito ao meu clube, pouco sei dessa mina inesgotável que faz do futebol um gigante aquário de “peixes obrigados a viver em terra”. Ainda que o mar não chegue a Gondomar ou à futura marina – de belíssima arquitectura, aliás – que vai ser construída junto à Ponte portuense do Freixo. Seja como for, a verdade é que há muita gente que ainda vive intimamente “acostumada à vida selvagem” e que se movimenta num campo onde não consegue colocar de lado “os seus nobres” e antigos “instintos”.
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Talvez seja esta mesma a essência do futebol: uma nobilíssima actividade que dá vantagem a quem esqueça a “má consciência” em nome do prazer boçal de uma guerra sem fim. Uma guerra suicidária, cuja história e utilidade está por escrever. Talvez um dia volte ao tema. Com mais tempo, claro.
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EPISÓDIOS E METEOROS
- 93 –
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Manuela Ferreira Leite e o Marechal Tito
- 93 –
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Manuela Ferreira Leite e o Marechal Tito
d
Toda a gente compreende que a entrada em cena de um novo protagonismo político acabe por trazer consigo uma palavra de ordem também nova e persuadora. Muitas vezes, pouco importa a razoabilidade ou a consistência dessa palavra de ordem. O que interessa é a capacidade que denote para ser ouvida, para motivar e para mobilizar.
d
Lembremo-nos da “Foz Côa” de Guterres, da cruzada de Morais Sarmento contra o “Acontece” (da RTP2) ou da encenada afronta de Sócrates aos farmacêuticos. Embora tão diferentes na sua natureza, todas estas palavras de ordem foram concertadas e planeadas, no seu tempo, com o objectivo simbólico de marcar uma atitude, de consolidar uma posição e de ganhar espírito de corpo.
d
Manuela Ferreira Leite optou recentemente por uma palavra de ordem que se tem traduzido pelo questionamento das “obras públicas” (em geral), por causa da “nova pobreza”, filha da actual dupla crise (herança do subprime e inflação petrolífera). Há três lados nesta novíssima moeda – espécie de ‘3D’ ainda sem impacto público de bola de neve – que está avidamente a circular entre os discursos de aflição da Silly Season.
d
Em primeiro lugar, trata-se de uma palavra de ordem muito geral e abstracta e, portanto, pouco concretizável na forma como tem sido explicada. Ou seja: por muita razão que veicule, é uma palavra de ordem que acaba inevitavelmente por dar o flanco… proporcionando aos adversários políticos uma boa hipótese de desmontagem.
d
Em segundo lugar, trata-se de uma palavra de ordem que não se afasta como devia de um intuito algo demagógico, na medida em que é esquemática na sua formulação: ‘salvar a nova pobreza’ versus ‘ostentar com auto-estradas e alta velocidade’. A realidade, parece-me bem, deverá ser mais complexa do que este (tão bem arrumadinho) ‘preto no branco’.
d
Em terceiro lugar, trata-se de uma palavra de ordem com lógica, embora, até ao momento, essa lógica não tenha sido devidamente enfatizada. De facto, poderá sempre defender-se que o ambiente financeiro em que os estudos do TGV e outros (mesmo os do novo aeroporto) foram realizados já não é, de modo nenhum, o mesmo ambiente que hoje respiramos. O que suscitaria, como é natural, revisão. Mas este argumento lógico tem andado exilado do ‘discurso de denúncia’ que, inadvertidamente, agora aparece colado ao renovado PSD.
d
Há qualquer coisa que não cola entre este ‘espírito de quase voragem’ e o imaginário de serenidade combativa de Ferreira Leite. Tanto mais que a herança de Menezes ou de Santana Lopes implicaria uma demarcação mais substantiva e mais tranquila. Não sei até que ponto a antiga ministra das finanças conseguirá ser o Marechal Tito da nossa Jugoslávia social-democrata.
Toda a gente compreende que a entrada em cena de um novo protagonismo político acabe por trazer consigo uma palavra de ordem também nova e persuadora. Muitas vezes, pouco importa a razoabilidade ou a consistência dessa palavra de ordem. O que interessa é a capacidade que denote para ser ouvida, para motivar e para mobilizar.
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Lembremo-nos da “Foz Côa” de Guterres, da cruzada de Morais Sarmento contra o “Acontece” (da RTP2) ou da encenada afronta de Sócrates aos farmacêuticos. Embora tão diferentes na sua natureza, todas estas palavras de ordem foram concertadas e planeadas, no seu tempo, com o objectivo simbólico de marcar uma atitude, de consolidar uma posição e de ganhar espírito de corpo.
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Manuela Ferreira Leite optou recentemente por uma palavra de ordem que se tem traduzido pelo questionamento das “obras públicas” (em geral), por causa da “nova pobreza”, filha da actual dupla crise (herança do subprime e inflação petrolífera). Há três lados nesta novíssima moeda – espécie de ‘3D’ ainda sem impacto público de bola de neve – que está avidamente a circular entre os discursos de aflição da Silly Season.
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Em primeiro lugar, trata-se de uma palavra de ordem muito geral e abstracta e, portanto, pouco concretizável na forma como tem sido explicada. Ou seja: por muita razão que veicule, é uma palavra de ordem que acaba inevitavelmente por dar o flanco… proporcionando aos adversários políticos uma boa hipótese de desmontagem.
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Em segundo lugar, trata-se de uma palavra de ordem que não se afasta como devia de um intuito algo demagógico, na medida em que é esquemática na sua formulação: ‘salvar a nova pobreza’ versus ‘ostentar com auto-estradas e alta velocidade’. A realidade, parece-me bem, deverá ser mais complexa do que este (tão bem arrumadinho) ‘preto no branco’.
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Em terceiro lugar, trata-se de uma palavra de ordem com lógica, embora, até ao momento, essa lógica não tenha sido devidamente enfatizada. De facto, poderá sempre defender-se que o ambiente financeiro em que os estudos do TGV e outros (mesmo os do novo aeroporto) foram realizados já não é, de modo nenhum, o mesmo ambiente que hoje respiramos. O que suscitaria, como é natural, revisão. Mas este argumento lógico tem andado exilado do ‘discurso de denúncia’ que, inadvertidamente, agora aparece colado ao renovado PSD.
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Há qualquer coisa que não cola entre este ‘espírito de quase voragem’ e o imaginário de serenidade combativa de Ferreira Leite. Tanto mais que a herança de Menezes ou de Santana Lopes implicaria uma demarcação mais substantiva e mais tranquila. Não sei até que ponto a antiga ministra das finanças conseguirá ser o Marechal Tito da nossa Jugoslávia social-democrata.
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EPISÓDIOS E METEOROS
- 92 –
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Metamorfoses lusas: o Género, “Aiata” e o Incêndio
- 92 –
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Metamorfoses lusas: o Género, “Aiata” e o Incêndio
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1- Um caso de Género
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A metamorfose é um campo de grande interesse. Alguns autores abordaram-no no singular (Kafka) e outros no plural (Ovídio). Em Portugal, o tema foi recentemente abordado no masculino e no feminino. Um caso de género, portanto. A primeira das versões pertence a Sócrates que passou a distinguir o Júlio César apunhalado no Senado (da crise internacional) do Júlio César conquistador da Gália (e do défice interno). A segunda versão pertence a Manuela Ferreira Leite que passou a condenar o TGV e outros desvarios menores – como auto-estradas para Bragança ou Beja – para dar algum dinheiro aos pobres. Um “jamés” com novos tons. O debate filogenético da nossa biologia política irá assim intensificar-se no Outono. A coisa promete. Até porque o país, dez anos após a Expo, não quererá ficar atrás de Kafka ou Ovídio.
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2 - “Aiata”
d
Se as metamorfoses são coisas extraordinárias da natureza, agora imagine-se o que é um telejornal da TV-I, à hora de almoço de domingo. No ecrã, aparece, a certa altura, um senhor chamado Gonçalves Pereira que explica os motivos do abandono de uma famosa reunião, embora antes tenha instado os demais conselheiros a deporem na “Aiata”. E a “Aiata” foi uma coisa repetida pelo senhor uma dúzia de vezes. A “Aiata” para cá e a “Aiata” para lá. Qualquer pessoa que não percebesse nada de futebol – e do Conselho de Justiça da respectiva Federação –, entenderia logo que o negócio da “Aiata” era um negócio com sede e interesses bem referenciados. Mas como as brincadeiras com a pronúncia são hoje coisa (no mínimo) incorrectíssima, à parte o saboroso divertimento alentejano, o caso da “Aiata” deixou de ser o caso de Pinto da Costa e do Boavista para dar origem a um casulo que ninguém conseguirá decifrar. Ou resolver. Por mim, chamar-lhe-ia o “AiataGate”. Uma metamorfose cheia de graça.
d
3 – O incêndio
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Por fim, as chamas a meio da noite. Dirão alguns (com júbilo) que “Lisboa já está a arder”. A metamorfose das metamorfoses. Nem Nero teria pensado com tanta subtileza. Mas o mais patusco, nas reportagens de serviço público, ou melhor, nos grandes debates de “Fórum”, acaba sempre por ser a deontologia do cidadão comum. Aquele que Bordalo Pinheiro desenhou “com a testa e o nariz manchado de prêto pelas dedadas de craião”, como escreveu no seu tempo Ramalho Ortigão. De repente, ei-lo aparecido no ecrã com olhos muito abertos e pronto a ditar a sua sentença: “Isto foram eles que pegaram fogo para ganhar dinheiro à nossa custa”. Por trás, entre a multidão, os telemóveis no ouvido servem para dizer que há um vasto rebanho em directo na TV.
d
Moral da história: o “Eles”, o “Sistema” ou o “Jamés” continuam a liderar as metamorfoses lusitanas. Pelos vistos, são ‘eles’ o autor mais desejado deste ameno Verão português.
1- Um caso de Género
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A metamorfose é um campo de grande interesse. Alguns autores abordaram-no no singular (Kafka) e outros no plural (Ovídio). Em Portugal, o tema foi recentemente abordado no masculino e no feminino. Um caso de género, portanto. A primeira das versões pertence a Sócrates que passou a distinguir o Júlio César apunhalado no Senado (da crise internacional) do Júlio César conquistador da Gália (e do défice interno). A segunda versão pertence a Manuela Ferreira Leite que passou a condenar o TGV e outros desvarios menores – como auto-estradas para Bragança ou Beja – para dar algum dinheiro aos pobres. Um “jamés” com novos tons. O debate filogenético da nossa biologia política irá assim intensificar-se no Outono. A coisa promete. Até porque o país, dez anos após a Expo, não quererá ficar atrás de Kafka ou Ovídio.
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2 - “Aiata”
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Se as metamorfoses são coisas extraordinárias da natureza, agora imagine-se o que é um telejornal da TV-I, à hora de almoço de domingo. No ecrã, aparece, a certa altura, um senhor chamado Gonçalves Pereira que explica os motivos do abandono de uma famosa reunião, embora antes tenha instado os demais conselheiros a deporem na “Aiata”. E a “Aiata” foi uma coisa repetida pelo senhor uma dúzia de vezes. A “Aiata” para cá e a “Aiata” para lá. Qualquer pessoa que não percebesse nada de futebol – e do Conselho de Justiça da respectiva Federação –, entenderia logo que o negócio da “Aiata” era um negócio com sede e interesses bem referenciados. Mas como as brincadeiras com a pronúncia são hoje coisa (no mínimo) incorrectíssima, à parte o saboroso divertimento alentejano, o caso da “Aiata” deixou de ser o caso de Pinto da Costa e do Boavista para dar origem a um casulo que ninguém conseguirá decifrar. Ou resolver. Por mim, chamar-lhe-ia o “AiataGate”. Uma metamorfose cheia de graça.
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3 – O incêndio
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Por fim, as chamas a meio da noite. Dirão alguns (com júbilo) que “Lisboa já está a arder”. A metamorfose das metamorfoses. Nem Nero teria pensado com tanta subtileza. Mas o mais patusco, nas reportagens de serviço público, ou melhor, nos grandes debates de “Fórum”, acaba sempre por ser a deontologia do cidadão comum. Aquele que Bordalo Pinheiro desenhou “com a testa e o nariz manchado de prêto pelas dedadas de craião”, como escreveu no seu tempo Ramalho Ortigão. De repente, ei-lo aparecido no ecrã com olhos muito abertos e pronto a ditar a sua sentença: “Isto foram eles que pegaram fogo para ganhar dinheiro à nossa custa”. Por trás, entre a multidão, os telemóveis no ouvido servem para dizer que há um vasto rebanho em directo na TV.
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Moral da história: o “Eles”, o “Sistema” ou o “Jamés” continuam a liderar as metamorfoses lusitanas. Pelos vistos, são ‘eles’ o autor mais desejado deste ameno Verão português.