segunda-feira, 26 de Maio de 2008

EPISÓDIOS E METEOROS
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Mann, Viconti e o caso Casa Pia
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Há uma dúzia de anos, Eduardo Prado Coelho foi convidado a escrever um dos textos mais marcantes do projecto de Leonel Moura, “Portugal Século XX - 50 rostos para uma identidade” (patrocinado pelo Público). A personalidade acolhida pelo ensaísta foi Herman José a quem então foi atribuída a rara capacidade de “teatralizar o quotidiano”, o “estupendo sentido de metamorfose” e a “desenvoltura irreverente” sempre “capaz do golpe de génio e da invenção mais improvável”. Prado Coelho concluía referindo que Herman José se tinha tornado “numa personalidade central da vida portuguesa, talvez a mais famosa” (entre as que tinham uma dimensão nacional).
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O mais curioso é que entre os dois grandes actos falhados do milénio português, ou seja, a saída de Guterres (por causa de um pântano sem fim) e a saída de Durão Barroso (por causa de uma luz sem fim que ardia na Grand Place) tudo mudou. Não foi apenas Herman ou Carlos Cruz que, de modos diversos, viriam a cair em desgraça, mas toda uma engrenagem até hoje pouco desvelada. E quando escrevo a palavra “engrenagem” não me refiro apenas a fait divers sujeitos à exaustão mais pérfida.
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Não me estou, por exemplo, a referir à fusão a frio entre Ferro Rodrigues, a “teoria da cabala” e a suma recompensa no altar da Unesco. Não me estou, por exemplo, a referir à saída de Paulo Pedroso da prisão e ao êxtase vivido no Parlamento, naquilo que terá sido o momento mais abjecto da Casa da Democracia, após o cerco de finais de 1975. Nem me estou seguramente a referir aos momentos mais negros da blogosfera (o blogue “Muito Mentiroso”), ou às tricas (por vezes paródicas) entre Santana e Sampaio que acabariam em clímax cinco dias após o início do julgamento do caso Casa Pia, no Tribunal da Boa-Hora (25/11/04).
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Quando soletro muito devagar a palavra “engrenagem”, estou sobretudo a tomar consciência de que muito mais mudou. E de modo particularmente vincado. Tive a plena consciência desse facto, quando, no sábado passado, revi o clássico Morte em Veneza de Visconti (1971), baseado na obra homónima de Thomas Mann (1912). Devo dizer que este filme se cruzou intensamente com a minha vida, nas décadas de setenta e oitenta, e que um dos meus primeiros romances (o terceiro: No Príncípio era Veneza – 1990), escrito em boa parte no local da cena, imaginava, entre outras coisas, uma segunda rodagem do filme. E declaro, desde já, para os devidos efeitos, que a intensidade da obra de Visconti tinha, à época, a sua origens em vínculos estéticos puros e em nada mais.
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Com efeito, o sublime e o arrojo estético de Visconti bastavam para absorver e emocionar quem, há uns anos, mergulhasse nesse filme. E jamais as atracções platónicas entre um homem mais velho e um menino pré-adolescente se traduziram no modo permissivo (ou ‘não permissivo’) de encarar o que passou a topoi no pós-caso Casa Pia: a pedofilia. Quer isto dizer que a engrenagem cultural mais profunda trouxe para o mainstream o que antes se ofuscava radicalmente, dando novo significado ao que até aí era arte pura. É por isso que o Morte em Veneza de sábado passado deixou de ser o que era. Confesso que não fui capaz – pela primeira vez – de ver o filme como antes o via. Ninguém, de facto, resiste aos julgamentos do seu tempo. Nem Herman, nem Prado Coelho, nem eu, nem ninguém.

sábado, 17 de Maio de 2008

EPISÓDIOS E METEOROS
- 84 –
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Saramago e Pinto da Costa: o mesmo mito
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Os mitos não são coisas do passado. Tal como as nuvens, os mitos estão sempre a reaparecer e a transformar-se. E nem sempre são encarnados por personalidades previsíveis. Por outras palavras: a mitologia passeia-se melhor em protagonistas vincados, polémicos e que dividem rebanhos como quem pega fogo a metade do mundo. O mito nada tem que ver com a razão, nem tem um rosto fixo que possa ser descrito de alto a baixo. No entanto, as pessoas precisam de mitos como o mar precisa das suas espécies. E eis como o que aparenta ser distante e mesmo irreconciliável se torna, na arena dos mitos, como algo que se aproxima quase intimamente. É por isso que Saramago e Pinto da Costa são, de algum modo, pilotos da mesma nave. Vejamos porquê:
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Fantasias históricas
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Toda a performance de Pinto da Costa é atravessada por uma pretensa questão fundacional: como se a “História” fosse uma régua rigorosamente linear, o Norte impor-se-ia ao Sul mouro e as virtudes originais de um contrastariam com as corruptelas da arraia menor (conquistada) do outro. Uma rivalidade fantasiosa que só é vista e entendida no lado de quem a imagina. No caso Saramago, a questão postulada é a ibérica. Não a Norte-Sul e fundacional, mas a que perpassa a sobrevivência do país ao longo de séculos. Para os patrioteiros e para os continuadores doentios do tempo dos “Vencidos da Vida”, a fractura voltou a expor-se. Quer Saramago, quer Pinto da Costa adoram expor as fracturas. Com grande ostensão. Diria mesmo: com algum exibicionismo.
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Apego tribal
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À ideia seminal de região, no caso de Pinto da Costa, corresponde, em Saramago, um outro tipo de região: a ideológica. Uma e outra são esquemáticas, razoavelmente a ‘preto e branco’ e tendencialmente viradas para a criação de exclusões naturais. Há sempre os “de fora” e os “de dentro” do campo que é apregoado. Um tal maniqueísmo entre os que estão “contra” e os que estão “a favor” é o alicerce, para não dizer a essência, de ambas as mitologias.
Ressentimentos vários
No caso Saramago, foi a idiotice de um governo de Cavaco que lhe deu o pretexto para a queixa sem fim. Precisa dela como água no deserto. Questão de marketing, como se diz em certos meios. No caso Pinto da Costa, a questão é mais endémica: o modo de afirmação do dirigente portista tem como base a necessidade de demonstrar que consegue superar uma perseguição também sem fim. E o objecto perseguidor pode variar, embora tenha que ser omnipresente e todo-poderoso: os media, Lisboa, a justiça, etc.
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Domínio dos meios
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‘Não olhar a meios’: eis um lema muito repetido. No caso do mundo futebolístico, a procissão está sempre no adro e a disputa passa por todo o lado e não apenas pelo relvado. Tudo e todos, incluindo a inércia dos tribunais, legitimam este perene estado de coisas. Em Saramago o lóbi é mais sereno… até porque a literatura se vê a si própria – agora já vai acontecendo menos, felizmente – como algo quase sagrado. Um nobel só é nobel por denotar inevitáveis qualidades e, também, por se inserir num imenso mar de influências. Nem sempre essa influência coincide com a arbitragem certa, mas avizinhar-se-á dela. Resumindo: quer Pinto da Costa, quer Saramago são hábeis nos tabuleiros dos respectivos jogos. Habilidades que transcendem (e de que modo) a natureza dos próprios jogos jogados.
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Mitos do amor
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O clímax destes vários paralelismos, caro leitor, está, de facto, na tradição mais fecunda da espécie. Repare-se: se Saramago herda o mito do amor eterno, cortês e nobre (o tabu de Inês de Castro vs. Pilar – ambas ‘não portuguesas’ – é evidente), já os folhetins de Pinto da Costa, que incendeiam o país com um fogo mais visceral e menos subtil, reflectem a tradição medieval de uma cidade onde a nobreza não podia entrar (salvo com autorização especial): o Porto. De um lado, o amor proibido e imposto como destino; do outro lado, o amor errante e popular… imposto como forma de inconformismo e de irascibilidade.
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Enfim: dois Portugais, mas os mesmíssimos mitos. A mesma respiração transfigurada.

sábado, 10 de Maio de 2008

EPISÓDIOS E METEOROS
- 83 –
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or vezes, comparo as imagens de Frida Kahlo aos fantasmas que se passeiam pelas nossas cabeças. A pintora mexicana deixou no imponderável da sua arte a ideia de vitimização (por vezes satírica), de denúncia sarcástica ou de impotência quase irónica. Em linguagem de Rafael Bordalo Pinheiro, a arte de Frida teria espelhado sobretudo o logro das “esperanças vãs”, tal como cantava António Mourão na época em que o tempo ainda “voltava para trás”.
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Só que hoje o tempo deixou de “andar” e de “voltar para trás”: apenas emerge, explode e calcorreia a sua sina de instantaneidade. E o sentimento misto de vitimização, denúncia e impotência deixou de ter uma moeda de troca precisa. Por uma simples razão: estamos a viver uma revolução que abandonou – felizmente – a propensão ideológica de transformar o mundo para passar a abraçar a comunicação pela comunicação nesse fiat que, em cada ápice, liga a nossa liberdade (possível) aos acenos da tecnologia. Nunca uma revolução foi tão profunda, intensa e, ao mesmo tempo, tão invisível. É por isso, também, que a nossa sociedade se ressente com alguns fenómenos a que não sabe ainda como responder. E que, geralmente, silencia. E mortifica.
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Por exemplo: tente acabar com a assinatura da TV Cabo. Eu conto uma experiência minha recente. Primeiro, apareceu uma senhora (com voz de Tágide simpática) que me encaminhou para um serviço dito “adequado”. Depois, uma outra senhora ouviu a minha pretensão. E, claro, que não lhe deu seguimento. Ao invés, perguntou mil coisas à moda de Poirrot, uma delas realmente desconcertante: “Mas, se abandonar esse (…) apartamento, sabe quem o virá ocupar a seguir? Não estaria o novo (…) inquilino interessado em manter os nossos serviços?”. Já terão passado quinze minutos e – após nova espera musical (com o objectivo de fazer crescer a impaciência) – a mesma voz pede-me, finalmente, que escreva uma carta à TV Cabo a “requerer o desligamento do serviço”. Antes de conseguir terminar a conversa, há ainda tempo para ouvir uma litania doce que me tenta dissuadir (à moda dos pastores protestantes) e que propõe novos “produtos”. Após quarenta e dois minutos de suave tortura – um rombo no meu telemóvel –, saio de casa e faço seguir a carta pelo correio.
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Corre o dia 25 de Março e escrevo na minha agenda o que então ficou acordado: em Abril já não haverá factura e, no início de Maio, poderei suspender o “débito directo”. Só que a TV Cabo não está pelos ajustes. Ao longo do mês de Abril, recebo no meu telemóvel três SMS (que rezam mais ou menos assim): “Ainda não conseguimos dar seguimento à sua pretensão”. No dia 2 de Maio, verifico que não foram desligados os canais da TV Cabo e confirmo que tudo o que havia solicitado (num acto da minha livre vontade) foi ignorado de modo ostensivo e deliberado. Preparo-me agora a próxima etapa deste processo kafkiano: vou ao banco, cancelo o débito directo e, como já aconteceu há uns anos sem que absolutamente nada o justificasse, aguardarei que um advogado menor – a quem a TV Cabo confiará alguma “cobrança de dívida” – comunique comigo. Uma beleza.
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É profundamente lamentável que, numa sociedade estruturada para a salvaguarda e garantia das liberdades, haja espaço para entidades que se sentem no céu. E que apoiadas na sua engenharia impessoal, fabricada em call centers, se recostem num trono divino imune à intrusão, ao cumprimento da palavra e sobretudo ao contraditório. E a verdade é que este novo modo (de esmagamento do outro) que relega o querer dos simples mortais para o vácuo… morre quase sempre no anonimato mortificado de cada um. Até quando? Frida Kahlo e António Mourão abanam os ombros. Não sabem. E eu, sinceramente, também não. Silenciado, ou quase.
EPISÓDIOS E METEOROS
- 82 –
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A política em Portugal
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Geralmente, as notícias dão-nos a ver a agenda diária através de contrastes: como se um mar se tivesse subitamente aberto. No entanto, trata-se sempre de um maremoto que não tem o peso de um maremoto real. Pouco do que se representa na cena causa dano ou compaixão trágica, mas antes um suceder de acções que cabe na beleza do ridículo, ou seja: no embaraço, no confronto fantasmático ou no acto falhado que se pressente quase sublime (aquele Coliseu no dia 25 de Abril…).
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São cenários que nos apresentam as mais variadas figuras e criaturas. Mas, de um momento para o outro, parece que se excluem do quadro para que foram pensadas. A cena passa então a ser uma oscilação entre cenas. E é nessa quase sobreposição de pequenos actos que o desconcerto melhor se revela: como um biombo que se desvia e põe a nu aquilo que tapava, mas também aquilo que jamais pensou encobrir (Patinha Antão, por exemplo). Uma mudança de estado cenográfica que põe o código aos trambolhões. Melhor: uma cenografia que já não cabe em si, de tão excessiva que é (Marcelo e os seus “mínimos”, por exemplo).
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As pequenas narrativas que cruzam a narrativa maior surgem de modo galopante. As partes cruzam-se como dois navios num porto ermo e solitário: como se se confundissem um no outro (Jerónimo e Louça, por exemplo). Sem dor, sem desastre e sem desfocagens no campo de visão: é isso mesmo o ruído, a redundância. Para ilustrar os desacatos evocados, o jogo de palavras exprime o artifício, a cilada fina e o ardil. Face à simulação de encarceramento, o riso transforma-se em atitude de defesa ou em resistência intuitiva. É por isso que gosto de ver Carvalho da Silva a ser entrevistado no dia 1 de Maio.
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De vez em quando, notam-se quebras de sequência. E o cidadão – que segue o curso de uma personagem – questiona: para onde iria? De onde viria? Mas, abruptamente, é como se isso tudo deixasse de interessar. A quebra de rotina torna-se então em episódio único e em prazer próprio. Algo que surge inadvertidamente e que do inadvertido se alimenta (Santana Lopes, nestes casos, não tem rival).
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E na cena que se relata, há ainda um momento em que o feitiço parece desfazer-se. Como se reencontrasse o fio do seu próprio desconcerto. A cena parece evocar Eça. Sim: Eça falou do ócio em quase toda a sua obra. O nosso mais fiel escritor sempre escreveu sobre o mundo frugal em que as personagens se referem a gestas e afazeres alheios, mas onde o que conta verdadeiramente é o quadro vivo onde se move a cupidez, a inveja menor, a intriga, o desejo contido, o egoísmo e o acacianismo como causa e repetição ilimitadas. No fundo, Eça riu-se do mundo que melhor conheceu, do ambiente, de si próprio. E fê-lo entre o idílio cosmopolita e a sala de estudo arranjada por Jacinto – ou seria por Alberto João Jardim? –, que tinha a um canto um molho de varapaus e no ar um intenso cheiro a favas.
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Ao rir-se do seu universo, Eça ria-se de todos os nossos fantasmas actuais. Até da estria contida do nosso Primeiro-Ministro. Porque o espalhafato de hoje é o risível de ontem. E de sempre.