EPISÓDIOS E METEOROS
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Editado por Fernanda Irene Fonseca, saiu a público, há cerca de um mês, o Diário Inédito de Vergílio Ferreira. Para além de romancista e ensaísta, o autor ficou também conhecido como diarista de fundo, por via sobretudo dos volumes do Conta-Corrente (entre 1980 e 1994). O que não era público até agora era a aventura do diário, ao longo dos anos que sucederam o final da Segunda Grande Guerra Mundial, de 1945 a 1949 (com ligeiro intervalo em 1947).
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A chegada de Vergílio Ferreira a Évora, onde iria viver quase década e meia, domina o diário. Os ecos da vida literária e política do país, neste período conturbado, também ecoam nas pouco mais de cem páginas do volume agora editado pela Bertrand. Mas este diário também acolhe factos pessoais de relevância: o casamento do escritor, o dia dos seus trinta anos e os momentos em que a doença assalta a alarmada consciência do autor de Aparição.
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Há precisamente sessenta anos, no final de Junho de 1948, escrevia Vergílio Ferreira: “É a terceira ou quarta vez que tento o diário. Suponho que desistirei ainda. Tudo e a repugnância de ver o papel que me lê”. Este desafio de blogueador – próprio de quem começa e acaba com a facilidade de uma nuvem que se faz e refaz – é tão livre quanto a revelação que é depois levada a cabo para justificar a própria escrita: “A ironia, essa confissão irresponsável, é o único meio que tenho à mão de condescender em me observar”.
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Ou seja: o “papel” – sim, falamos de um tempo em que se escrevia à mão – parece querer observar o escritor do mesmo modo que o escritor se observa através de uma ironia deliberada. Num trecho de 30 de Junho de 1948, Vergílio Ferreira estabelecerá uma semelhança (panteísta) entre a luz que entra pela janela e a “irresponsabilidade” da confissão que antes designara através da palavra “ironia”:
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“Do alto da galeria da janela pende uma cortina de cassa em pregas fluidas. Com a aragem breve que vem lá de fora, as pregas ondulam abandonadas. A lâmpada apagada roda com o abajur em torno do fio suspenso do tecto. Caio no fundo do sofá e deixo, irresponsável, que a luz quebrada do céu de tarde desça sobre mim, me cubra de sossego.”
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Estes sortilégios dir-se-á ‘rendilhados’ fazem – ou fizeram – o que era, à época, a sacralizada vida de um escritor: um destino ímpar. Veja-se: “Creio que não se fazem obras só com palavras mas também com a própria pessoa do escritor, a sua presença, a sua voz, até a sua gravata. Que são escritores descobertos depois de mortos senão isso mesmo?”. Um destino ímpar em que o escritor surgia em cena como o sacerdote da convulsão moderna. Era este o impasse que caberia a um Vergílio Ferreira de trinta anos quebrar. Um confronto que o existencialismo e a fúria da leitura completavam.
e
Estamos tão longe deste “caldo de cultura” (como dizem os pregões televisivos franceses) como do dia em que Henrique VIII disse – “Mate-se!”. A literatura, hoje em dia, é uma natureza exótica e pouco praticada. Confunde-se com a miríade de livros que escala pelos escaparates como mulúsculos nos mercados de Xangai. A coisa que foi a literatura – uma revelação da sociedade e do humano como referência central de vida – encheu o século dezanove e boa parte de novecentos. E hoje olha para nós como uma “ironia” que quase radicalmente nos escapa.
Editado por Fernanda Irene Fonseca, saiu a público, há cerca de um mês, o Diário Inédito de Vergílio Ferreira. Para além de romancista e ensaísta, o autor ficou também conhecido como diarista de fundo, por via sobretudo dos volumes do Conta-Corrente (entre 1980 e 1994). O que não era público até agora era a aventura do diário, ao longo dos anos que sucederam o final da Segunda Grande Guerra Mundial, de 1945 a 1949 (com ligeiro intervalo em 1947).
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A chegada de Vergílio Ferreira a Évora, onde iria viver quase década e meia, domina o diário. Os ecos da vida literária e política do país, neste período conturbado, também ecoam nas pouco mais de cem páginas do volume agora editado pela Bertrand. Mas este diário também acolhe factos pessoais de relevância: o casamento do escritor, o dia dos seus trinta anos e os momentos em que a doença assalta a alarmada consciência do autor de Aparição.
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Há precisamente sessenta anos, no final de Junho de 1948, escrevia Vergílio Ferreira: “É a terceira ou quarta vez que tento o diário. Suponho que desistirei ainda. Tudo e a repugnância de ver o papel que me lê”. Este desafio de blogueador – próprio de quem começa e acaba com a facilidade de uma nuvem que se faz e refaz – é tão livre quanto a revelação que é depois levada a cabo para justificar a própria escrita: “A ironia, essa confissão irresponsável, é o único meio que tenho à mão de condescender em me observar”.
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Ou seja: o “papel” – sim, falamos de um tempo em que se escrevia à mão – parece querer observar o escritor do mesmo modo que o escritor se observa através de uma ironia deliberada. Num trecho de 30 de Junho de 1948, Vergílio Ferreira estabelecerá uma semelhança (panteísta) entre a luz que entra pela janela e a “irresponsabilidade” da confissão que antes designara através da palavra “ironia”:
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“Do alto da galeria da janela pende uma cortina de cassa em pregas fluidas. Com a aragem breve que vem lá de fora, as pregas ondulam abandonadas. A lâmpada apagada roda com o abajur em torno do fio suspenso do tecto. Caio no fundo do sofá e deixo, irresponsável, que a luz quebrada do céu de tarde desça sobre mim, me cubra de sossego.”
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Estes sortilégios dir-se-á ‘rendilhados’ fazem – ou fizeram – o que era, à época, a sacralizada vida de um escritor: um destino ímpar. Veja-se: “Creio que não se fazem obras só com palavras mas também com a própria pessoa do escritor, a sua presença, a sua voz, até a sua gravata. Que são escritores descobertos depois de mortos senão isso mesmo?”. Um destino ímpar em que o escritor surgia em cena como o sacerdote da convulsão moderna. Era este o impasse que caberia a um Vergílio Ferreira de trinta anos quebrar. Um confronto que o existencialismo e a fúria da leitura completavam.
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Estamos tão longe deste “caldo de cultura” (como dizem os pregões televisivos franceses) como do dia em que Henrique VIII disse – “Mate-se!”. A literatura, hoje em dia, é uma natureza exótica e pouco praticada. Confunde-se com a miríade de livros que escala pelos escaparates como mulúsculos nos mercados de Xangai. A coisa que foi a literatura – uma revelação da sociedade e do humano como referência central de vida – encheu o século dezanove e boa parte de novecentos. E hoje olha para nós como uma “ironia” que quase radicalmente nos escapa.
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EPISÓDIOS E METEOROS
- 89 –
O Google, Sócrates e a fragilidade do estado
- 89 –
O Google, Sócrates e a fragilidade do estado
e
Estamos cada vez mais próximos do tempo em que os governantes hão-de googlar para entender o que se passa à sua volta. Mas, de vez em quando, já vai havendo sintomas da nova tentação. Outro dia, no Parlamento, José Sócrates afirmou que tinha reparado na “fragilidade” do estado. O motivo foi uma greve de transportadores que transformou o país num campo electromagnético.
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Quando um Primeiro-ministro lança ao ar um papagaio no areal, o mínimo que se espera é que ele saiba que o papagaio voa. Pois, no nosso caso, parece ter sido tão inocente o “porreiro pá!” que encerrou a presidência portuguesa da União Europeia quanto esta sintomática constatação de “fragilidade”. Afinal, o papagaio voava – disse Sócrates! –, sublinhando a óbvia vulnerabilidade em que parecemos todos deslizar ao sabor do vento.
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Na língua árabe, há uma série de palavras para designar falcão. É normal que uma língua reflicta o meio ambiente em que nasceu e se desenvolveu. Por exemplo, em Português, bluff diz-se de inúmeras formas, embora quase todas rimem com ‘Pomposo’. Veja-se o metro de Mirandela que toda a gente sabe que é o rebaptizar (caro) de linhas-férreas pré-existentes. Veja-se o aeroporto de Beja que toda a gente sabe que é o rebaptizar (caro) de uma base aérea da NATO. Veja-se o ‘património mundial’ que toda a gente sabe que é um rebaptizar cerimonial (e caro) das ‘cidades-museu’. Isto para já não falar do contentamento que dá às populações ver um edifício na terra onde apareça escrita a palavra “Universidade”, mesmo que lá dentro apenas se jogue bridge ou se façam reuniões para discutir o peso de um frango. Isto para já não falar dos clubes de futebol que, à custa dos contribuintes, inflamam a praça pública para mera satisfação tribal ou regional.
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O bluff, a batota ou a auto-ilusão alarve constituem o reverso de uma extrema fragilidade. Sócrates tinha toda a razão. Mas esta fragilidade funciona a vários ritmos e a várias escalas. Lembram-se da ‘Expo-98’? A feira que teve lugar no não menos pomposo “Parque das Nações”? É interessante folhear os jornais da época e ler o que lá está. “Agora é que é de vez!”. “Depois disto, Portugal virou a página e nunca mais será conhecido como o país do fado”. “Voltámos à ‘Idade do Ouro’, mas agora com caravelas feitas de tecnologia”. Etc, etc, etc. Até que… chegou a hora do Euro-2004, justamente porque “já tínhamos mostrado ao mundo” que éramos capazes de atirar papagaios ao ar num areal sem fim.
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E numa manhã, sob nevoeiro, apareceram na praia os transportadores. E houve três dias em que ninguém disse “Ai” nem “Ui”. Nem ‘posição’, nem “oposição”. Nem clero, nem povo, nem nobreza. Nada. E o papagaio voava. Voava muito alto. E tudo se passou entre feriados. Até que, no dia da ressurreição, Sócrates foi ao Google e descobriu o substantivo abstracto “fragilidade”.
Estamos cada vez mais próximos do tempo em que os governantes hão-de googlar para entender o que se passa à sua volta. Mas, de vez em quando, já vai havendo sintomas da nova tentação. Outro dia, no Parlamento, José Sócrates afirmou que tinha reparado na “fragilidade” do estado. O motivo foi uma greve de transportadores que transformou o país num campo electromagnético.
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Quando um Primeiro-ministro lança ao ar um papagaio no areal, o mínimo que se espera é que ele saiba que o papagaio voa. Pois, no nosso caso, parece ter sido tão inocente o “porreiro pá!” que encerrou a presidência portuguesa da União Europeia quanto esta sintomática constatação de “fragilidade”. Afinal, o papagaio voava – disse Sócrates! –, sublinhando a óbvia vulnerabilidade em que parecemos todos deslizar ao sabor do vento.
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Na língua árabe, há uma série de palavras para designar falcão. É normal que uma língua reflicta o meio ambiente em que nasceu e se desenvolveu. Por exemplo, em Português, bluff diz-se de inúmeras formas, embora quase todas rimem com ‘Pomposo’. Veja-se o metro de Mirandela que toda a gente sabe que é o rebaptizar (caro) de linhas-férreas pré-existentes. Veja-se o aeroporto de Beja que toda a gente sabe que é o rebaptizar (caro) de uma base aérea da NATO. Veja-se o ‘património mundial’ que toda a gente sabe que é um rebaptizar cerimonial (e caro) das ‘cidades-museu’. Isto para já não falar do contentamento que dá às populações ver um edifício na terra onde apareça escrita a palavra “Universidade”, mesmo que lá dentro apenas se jogue bridge ou se façam reuniões para discutir o peso de um frango. Isto para já não falar dos clubes de futebol que, à custa dos contribuintes, inflamam a praça pública para mera satisfação tribal ou regional.
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O bluff, a batota ou a auto-ilusão alarve constituem o reverso de uma extrema fragilidade. Sócrates tinha toda a razão. Mas esta fragilidade funciona a vários ritmos e a várias escalas. Lembram-se da ‘Expo-98’? A feira que teve lugar no não menos pomposo “Parque das Nações”? É interessante folhear os jornais da época e ler o que lá está. “Agora é que é de vez!”. “Depois disto, Portugal virou a página e nunca mais será conhecido como o país do fado”. “Voltámos à ‘Idade do Ouro’, mas agora com caravelas feitas de tecnologia”. Etc, etc, etc. Até que… chegou a hora do Euro-2004, justamente porque “já tínhamos mostrado ao mundo” que éramos capazes de atirar papagaios ao ar num areal sem fim.
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E numa manhã, sob nevoeiro, apareceram na praia os transportadores. E houve três dias em que ninguém disse “Ai” nem “Ui”. Nem ‘posição’, nem “oposição”. Nem clero, nem povo, nem nobreza. Nada. E o papagaio voava. Voava muito alto. E tudo se passou entre feriados. Até que, no dia da ressurreição, Sócrates foi ao Google e descobriu o substantivo abstracto “fragilidade”.
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EPISÓDIOS E METEOROS
- 88 –
Da selecção à queda em desgraça do FCP
- 88 –
Da selecção à queda em desgraça do FCP
e
A primeira metade da semana que passou foi galvanizada – não dominada – pela queda em desgraça do Futebol Clube do Porto. “Queda em desgraça” é uma expressão forte, eu sei. E o meio do futebol tem tanto de desgraçado quanto de fantástico: um circo que move mundos, afectos e motivos (nem sempre aventurosos) de alguma pertença tribal. Aliás, quando se fala destes temas, há imediatamente o espectro de uma resposta violenta, primária e, no mínimo, chã. Mas não se pense que o futebol é um corpo estranho face à vida do dia-a-dia.
e
Bastará rever a constelação eufórica dos emigrantes portugueses em torno da selecção. Bastará rever o contínuo relâmpago mediático em torno dos cachecóis vermelhos e verdes contra o vestígio do que foi a temível frota otomana. Bastará rever o clima de redenção (e de palavras de ordem por vezes alarves) que parecem querer cimentar uma unidade nacional fantasmática. E de sentido único.
e
Mas uma desgraça, mesmo se abafada por factos sublimes, nunca vem só: à corrupção (“tentada”) soma-se quase sempre a vitimização, a denegação e o mais amargo dos ressentimentos. À acusação e à polémica que envolve os recursos entre instâncias jurídicas somam-se sempre delações, apelos de teor apocalíptico e solidariedades feirantes. E toda esta serena arruaça se vende muito bem nos jornais. Pelo menos desde Fernão Lopes.
e
Ou seja: enquanto Portugal invade a Suíça, num frémito guerreiro que torna as nossas ruas desertas, a “desgraça” do FCP foi remetida para um cantinho de ecrã. No fundo, como algo normal, conhecido e, aparentemente, já há muito esperado e digerido. Só estranhará quem não sai do aquário para se espreitar, a si mesmo, de modo cauteloso e frio.
e
O mesmo poderia ter acontecido a outros clubes noutras épocas. Mas não, porventura, do modo como, nos anos oitenta e noventa, a par de uma óbvia organização e determinação – faça-se justiça! –, o clube do Porto fez jus aos fins sem muitas vezes olhar a meios. E o mais incrível é que todo o aparato justiceiro do último mês e meio apenas teve como base a memória de um ou dois jogos e não as muitas centenas de outros… para sempre removidos das “escutas”, dos relatórios e das fiscalizações.
e
Pode, pois, dizer-se que o “Rei vai” inteiramente “nu”, tal como o petróleo nos mercados: vale o que vale, enquanto for aceite enquanto tal. Peirce dizia que as verdades eram como as moedas: só as deveríamos aceitar, enquanto ainda valessem alguma coisa. O princípio aplica-se às “desgraças do futebol”, às “expressões fortes”, aos “frémitos guerreiros”, ao preço do crude, à violência recalcada, aos cantinhos do ecrã, aos impérios com pés de barro e a todos os fantasmas que intimem as regras do jogo, as consciências… ou até simples crónicas como esta.
A primeira metade da semana que passou foi galvanizada – não dominada – pela queda em desgraça do Futebol Clube do Porto. “Queda em desgraça” é uma expressão forte, eu sei. E o meio do futebol tem tanto de desgraçado quanto de fantástico: um circo que move mundos, afectos e motivos (nem sempre aventurosos) de alguma pertença tribal. Aliás, quando se fala destes temas, há imediatamente o espectro de uma resposta violenta, primária e, no mínimo, chã. Mas não se pense que o futebol é um corpo estranho face à vida do dia-a-dia.
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Bastará rever a constelação eufórica dos emigrantes portugueses em torno da selecção. Bastará rever o contínuo relâmpago mediático em torno dos cachecóis vermelhos e verdes contra o vestígio do que foi a temível frota otomana. Bastará rever o clima de redenção (e de palavras de ordem por vezes alarves) que parecem querer cimentar uma unidade nacional fantasmática. E de sentido único.
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Mas uma desgraça, mesmo se abafada por factos sublimes, nunca vem só: à corrupção (“tentada”) soma-se quase sempre a vitimização, a denegação e o mais amargo dos ressentimentos. À acusação e à polémica que envolve os recursos entre instâncias jurídicas somam-se sempre delações, apelos de teor apocalíptico e solidariedades feirantes. E toda esta serena arruaça se vende muito bem nos jornais. Pelo menos desde Fernão Lopes.
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Ou seja: enquanto Portugal invade a Suíça, num frémito guerreiro que torna as nossas ruas desertas, a “desgraça” do FCP foi remetida para um cantinho de ecrã. No fundo, como algo normal, conhecido e, aparentemente, já há muito esperado e digerido. Só estranhará quem não sai do aquário para se espreitar, a si mesmo, de modo cauteloso e frio.
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O mesmo poderia ter acontecido a outros clubes noutras épocas. Mas não, porventura, do modo como, nos anos oitenta e noventa, a par de uma óbvia organização e determinação – faça-se justiça! –, o clube do Porto fez jus aos fins sem muitas vezes olhar a meios. E o mais incrível é que todo o aparato justiceiro do último mês e meio apenas teve como base a memória de um ou dois jogos e não as muitas centenas de outros… para sempre removidos das “escutas”, dos relatórios e das fiscalizações.
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Pode, pois, dizer-se que o “Rei vai” inteiramente “nu”, tal como o petróleo nos mercados: vale o que vale, enquanto for aceite enquanto tal. Peirce dizia que as verdades eram como as moedas: só as deveríamos aceitar, enquanto ainda valessem alguma coisa. O princípio aplica-se às “desgraças do futebol”, às “expressões fortes”, aos “frémitos guerreiros”, ao preço do crude, à violência recalcada, aos cantinhos do ecrã, aos impérios com pés de barro e a todos os fantasmas que intimem as regras do jogo, as consciências… ou até simples crónicas como esta.
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EPISÓDIOS E METEOROS
- 87 –
Do paternalismo à liberdade
- 87 –
Do paternalismo à liberdade
e
Para o homem medieval, não se colocava a questão do que era, ou não, a literatura. Bastava-lhe a “Escritura”, ou seja, o verbo que equivalia à salvação. É o homem moderno, depois do fim do século XVIII, que irá colocar, entre muitas outras, a questão da literatura.
e
Com efeito, o mundo moderno ocidental foi atravessado por três vagas espessas de escrita literária: a romântica (uma interrogação livre, generalizada e por vezes mística sobre o homem), a realista (uma focagem da vida protagonizada pelo homem à luz das suas novas codificações com destaque para a, às vezes ilusória, noção do "progresso") e a monumental (a reacção em cascata à própria linearidade do moderno, concebida ainda no universo e no tempo do livro: Joyce, Proust, Woolf, James, Kafka, Mann, etc.).
e
Após estas três vagas, seguiram-se as desmontagens levadas a cabo no próprio terreno da literatura (o feérico on the road ou o estigma do nouveau roman, por exemplo). Depois, a mitologia televisiva passou a ocupar, a pouco e pouco, a referencialidade do que antes havia sido a expressão literária. Alguns anos mais tarde, não muitos, as imagens fundidas com a hipertecnologia (e com os desmembramento das regras e ideários fixos e ideológicos), acabariam por estruturar toda a nossa vida, relegando a literatura para um local de puro nicho (foi uma travessia rápida, esta última, entre o fim dos anos oitenta e o início do nosso século).
E
Como se vê, passaram-se milénios em poucas décadas. De tal modo que, para o homem actual, deixou de haver de vez um problema em torno da literatura. Que grande alívio, dir-se-á. Um alívio sem “Escrituras” e sem suratas ideológicas. Um alívio a saber apenas a alívio. É por isso que, quando hoje leio um texto de ficção, nunca sei realmente se a literatura está a passar por ali, ou se aquilo é já um exemplo – mais um – de um território de onde se apearam, para sempre, fronteiras, géneros e expressões definidas (estou a lembrar-me da curiosíssima apresentação da obra de Gonçalo M. Tavares, tal como surge enunciada nos seus próprios livros).
e
Eu gosto de um mundo assim: rasgado na tentação da permanente descoberta e não baseado no assentimento prévio e dado. Atrai-me mais a multiplicidade e a interrogação e menos as sacralizações e todas as sublimações (ideológicas, literárias ou outras) que as sucederam. O mundo, tal como o entendemos hoje, já não é o mundo em que Aquilino, Torga ou Vergílio Ferreira eram ouvidos como dignos senadores do nosso imaginário. Um alívio para eles. E para nós também.
e
Neste tempo de crise, há reflexões que confirmam, mesmo em áreas aparentemente exteriores ao mercado do petróleo ou aos impactos do subprime, que passámos a viver num universo sem quaisquer receitas paternalistas. O alívio que tal pressupõe é, também, por outro lado, uma imensa importunidade. Um arrepio quase sem rede. É por isso que, nesta novíssima corrente de ar, se joga essencialmente a liberdade. A capacidade radical de saber inventar. Um desafio que os românticos já haviam colocado na agenda, de modo decidido, e, por vezes, com sadia e suma ingenuidade. Sigamos-lhe o exemplo.
Para o homem medieval, não se colocava a questão do que era, ou não, a literatura. Bastava-lhe a “Escritura”, ou seja, o verbo que equivalia à salvação. É o homem moderno, depois do fim do século XVIII, que irá colocar, entre muitas outras, a questão da literatura.
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Com efeito, o mundo moderno ocidental foi atravessado por três vagas espessas de escrita literária: a romântica (uma interrogação livre, generalizada e por vezes mística sobre o homem), a realista (uma focagem da vida protagonizada pelo homem à luz das suas novas codificações com destaque para a, às vezes ilusória, noção do "progresso") e a monumental (a reacção em cascata à própria linearidade do moderno, concebida ainda no universo e no tempo do livro: Joyce, Proust, Woolf, James, Kafka, Mann, etc.).
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Após estas três vagas, seguiram-se as desmontagens levadas a cabo no próprio terreno da literatura (o feérico on the road ou o estigma do nouveau roman, por exemplo). Depois, a mitologia televisiva passou a ocupar, a pouco e pouco, a referencialidade do que antes havia sido a expressão literária. Alguns anos mais tarde, não muitos, as imagens fundidas com a hipertecnologia (e com os desmembramento das regras e ideários fixos e ideológicos), acabariam por estruturar toda a nossa vida, relegando a literatura para um local de puro nicho (foi uma travessia rápida, esta última, entre o fim dos anos oitenta e o início do nosso século).
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Como se vê, passaram-se milénios em poucas décadas. De tal modo que, para o homem actual, deixou de haver de vez um problema em torno da literatura. Que grande alívio, dir-se-á. Um alívio sem “Escrituras” e sem suratas ideológicas. Um alívio a saber apenas a alívio. É por isso que, quando hoje leio um texto de ficção, nunca sei realmente se a literatura está a passar por ali, ou se aquilo é já um exemplo – mais um – de um território de onde se apearam, para sempre, fronteiras, géneros e expressões definidas (estou a lembrar-me da curiosíssima apresentação da obra de Gonçalo M. Tavares, tal como surge enunciada nos seus próprios livros).
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Eu gosto de um mundo assim: rasgado na tentação da permanente descoberta e não baseado no assentimento prévio e dado. Atrai-me mais a multiplicidade e a interrogação e menos as sacralizações e todas as sublimações (ideológicas, literárias ou outras) que as sucederam. O mundo, tal como o entendemos hoje, já não é o mundo em que Aquilino, Torga ou Vergílio Ferreira eram ouvidos como dignos senadores do nosso imaginário. Um alívio para eles. E para nós também.
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Neste tempo de crise, há reflexões que confirmam, mesmo em áreas aparentemente exteriores ao mercado do petróleo ou aos impactos do subprime, que passámos a viver num universo sem quaisquer receitas paternalistas. O alívio que tal pressupõe é, também, por outro lado, uma imensa importunidade. Um arrepio quase sem rede. É por isso que, nesta novíssima corrente de ar, se joga essencialmente a liberdade. A capacidade radical de saber inventar. Um desafio que os românticos já haviam colocado na agenda, de modo decidido, e, por vezes, com sadia e suma ingenuidade. Sigamos-lhe o exemplo.
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EPISÓDIOS E METEOROS
- 86 –
O plágio de um dos meus romances
- 86 –
O plágio de um dos meus romances
e
Os blogues são um mundo curioso. O meu fascínio por esta expressão muito pessoalizada (em tempo de aparente impessoalidade) levou-me, há cinco anos, a criar um blogue e, mais tarde, a escrever um livro sobre as novidades que o meio trouxe à comunicação contemporânea.
e
Vem esta introdução a propósito de um comentário que li a um texto meu publicado, por convite de Sofia Bragança Buchholz, no blogue “31 da Armada”. Já devo ter lido milhares de comentários no meu blogue e em muitos outros. O espaço de comentário, na nossa galáxia de interacções – mesmo aqui no Expresso Online –, é um campo corrosivamente imponderável onde tudo se torna possível: desde a mais cândida beleza aos lances de cariz terrorista. Os limites de actuação, nos comentários, independente do anonimato, correspondem aos limites que cabem na nossa natureza humana.
e
Mas houve algo de muito diferente no comentário que li no blogue “31 da Armada”. Não é todos os dias que alguém propõe uma campanha de solidariedade à minha própria pessoa, sendo eu vítima de algo que desconheço na totalidade. Ora leia-se:
e
“Apelo a todos para uma grande onda de solidariedade com Luís Carmelo que está a ser vítima de um plágio vergonhoso e descarado. Acaba de entrar no mercado português um livro chamado ‘A Fenda’, título decalcado de uma obra de Carmelo já com vários anos e inclusivamente adaptada ao cinema. É preciso tomarmos todos consciência do modo como frequentemente são ignominiosamente violados os direitos de autor no nosso país. Como é possível uma autora qualquer, de repente, escrever um livro de qualidade discutível e dar-lhe o título de uma obra já existente?”
e
Ainda não li o livro que o leitor do “31 da Armada” refere (por sinal, o simpático leitor identificou-se, não com o nome, mas com a expressão “Ser não identificado por falta de perfil na net ou por razões bem piores”). Interessantíssimo. Seja como for, o solene aviso leva-me a tecer umas brevíssimas considerações:
e
Várias vezes, ao ser entrevistado por causa do meu romance A Falha (1998), vi e ouvi jornalistas a repetirem o mesmo lapso: pronunciavam “Fenda” em vez de “Falha”. Uma falha fascinante e persistente. Quer isto dizer que há proximidade sensitiva e significativa entre ambos os títulos, embora os termos sejam diferentes. Não vejo que venha mal algum ao mundo, se o romance agora aludido utilizar a palavra “Fenda” no título. Até porque seria muito difícil reatar um argumento que se baseia num ponto de partida clássico – um reencontro entre pessoas que já foram íntimas – e num desenvolvimento posterior, aberto à turbulência, ao acidente e à desmontagem trágica dessa intimidade. Diria ainda que é impossível plagiar um ambiente de escrita e uma poética. Ou seja: nem eu seria capaz de rescrever o meu próprio romance, porque já estou irremediavelmente afastado dos ingredientes que o viram nascer, no meu escritório, em finais de 1996.
e
Agradeço a amável intenção do senhor que dá pelo nome de “Ser não identificado por falta de perfil na net ou por razões bem piores”. Mas não estou angustiado. Absolutamente nada. Vivemos uma vida inteira para percebermos o que é uma buganvília. E isso já é muito, confesso. Os blogues têm-me ajudado a compreender – com mais clareza – esta quase verdade.
Os blogues são um mundo curioso. O meu fascínio por esta expressão muito pessoalizada (em tempo de aparente impessoalidade) levou-me, há cinco anos, a criar um blogue e, mais tarde, a escrever um livro sobre as novidades que o meio trouxe à comunicação contemporânea.
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Vem esta introdução a propósito de um comentário que li a um texto meu publicado, por convite de Sofia Bragança Buchholz, no blogue “31 da Armada”. Já devo ter lido milhares de comentários no meu blogue e em muitos outros. O espaço de comentário, na nossa galáxia de interacções – mesmo aqui no Expresso Online –, é um campo corrosivamente imponderável onde tudo se torna possível: desde a mais cândida beleza aos lances de cariz terrorista. Os limites de actuação, nos comentários, independente do anonimato, correspondem aos limites que cabem na nossa natureza humana.
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Mas houve algo de muito diferente no comentário que li no blogue “31 da Armada”. Não é todos os dias que alguém propõe uma campanha de solidariedade à minha própria pessoa, sendo eu vítima de algo que desconheço na totalidade. Ora leia-se:
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“Apelo a todos para uma grande onda de solidariedade com Luís Carmelo que está a ser vítima de um plágio vergonhoso e descarado. Acaba de entrar no mercado português um livro chamado ‘A Fenda’, título decalcado de uma obra de Carmelo já com vários anos e inclusivamente adaptada ao cinema. É preciso tomarmos todos consciência do modo como frequentemente são ignominiosamente violados os direitos de autor no nosso país. Como é possível uma autora qualquer, de repente, escrever um livro de qualidade discutível e dar-lhe o título de uma obra já existente?”
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Ainda não li o livro que o leitor do “31 da Armada” refere (por sinal, o simpático leitor identificou-se, não com o nome, mas com a expressão “Ser não identificado por falta de perfil na net ou por razões bem piores”). Interessantíssimo. Seja como for, o solene aviso leva-me a tecer umas brevíssimas considerações:
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Várias vezes, ao ser entrevistado por causa do meu romance A Falha (1998), vi e ouvi jornalistas a repetirem o mesmo lapso: pronunciavam “Fenda” em vez de “Falha”. Uma falha fascinante e persistente. Quer isto dizer que há proximidade sensitiva e significativa entre ambos os títulos, embora os termos sejam diferentes. Não vejo que venha mal algum ao mundo, se o romance agora aludido utilizar a palavra “Fenda” no título. Até porque seria muito difícil reatar um argumento que se baseia num ponto de partida clássico – um reencontro entre pessoas que já foram íntimas – e num desenvolvimento posterior, aberto à turbulência, ao acidente e à desmontagem trágica dessa intimidade. Diria ainda que é impossível plagiar um ambiente de escrita e uma poética. Ou seja: nem eu seria capaz de rescrever o meu próprio romance, porque já estou irremediavelmente afastado dos ingredientes que o viram nascer, no meu escritório, em finais de 1996.
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Agradeço a amável intenção do senhor que dá pelo nome de “Ser não identificado por falta de perfil na net ou por razões bem piores”. Mas não estou angustiado. Absolutamente nada. Vivemos uma vida inteira para percebermos o que é uma buganvília. E isso já é muito, confesso. Os blogues têm-me ajudado a compreender – com mais clareza – esta quase verdade.
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