Sábado, 10 de Maio de 2008

EPISÓDIOS E METEOROS
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A política em Portugal
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Geralmente, as notícias dão-nos a ver a agenda diária através de contrastes: como se um mar se tivesse subitamente aberto. No entanto, trata-se sempre de um maremoto que não tem o peso de um maremoto real. Pouco do que se representa na cena causa dano ou compaixão trágica, mas antes um suceder de acções que cabe na beleza do ridículo, ou seja: no embaraço, no confronto fantasmático ou no acto falhado que se pressente quase sublime (aquele Coliseu no dia 25 de Abril…).
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São cenários que nos apresentam as mais variadas figuras e criaturas. Mas, de um momento para o outro, parece que se excluem do quadro para que foram pensadas. A cena passa então a ser uma oscilação entre cenas. E é nessa quase sobreposição de pequenos actos que o desconcerto melhor se revela: como um biombo que se desvia e põe a nu aquilo que tapava, mas também aquilo que jamais pensou encobrir (Patinha Antão, por exemplo). Uma mudança de estado cenográfica que põe o código aos trambolhões. Melhor: uma cenografia que já não cabe em si, de tão excessiva que é (Marcelo e os seus “mínimos”, por exemplo).
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As pequenas narrativas que cruzam a narrativa maior surgem de modo galopante. As partes cruzam-se como dois navios num porto ermo e solitário: como se se confundissem um no outro (Jerónimo e Louça, por exemplo). Sem dor, sem desastre e sem desfocagens no campo de visão: é isso mesmo o ruído, a redundância. Para ilustrar os desacatos evocados, o jogo de palavras exprime o artifício, a cilada fina e o ardil. Face à simulação de encarceramento, o riso transforma-se em atitude de defesa ou em resistência intuitiva. É por isso que gosto de ver Carvalho da Silva a ser entrevistado no dia 1 de Maio.
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De vez em quando, notam-se quebras de sequência. E o cidadão – que segue o curso de uma personagem – questiona: para onde iria? De onde viria? Mas, abruptamente, é como se isso tudo deixasse de interessar. A quebra de rotina torna-se então em episódio único e em prazer próprio. Algo que surge inadvertidamente e que do inadvertido se alimenta (Santana Lopes, nestes casos, não tem rival).
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E na cena que se relata, há ainda um momento em que o feitiço parece desfazer-se. Como se reencontrasse o fio do seu próprio desconcerto. A cena parece evocar Eça. Sim: Eça falou do ócio em quase toda a sua obra. O nosso mais fiel escritor sempre escreveu sobre o mundo frugal em que as personagens se referem a gestas e afazeres alheios, mas onde o que conta verdadeiramente é o quadro vivo onde se move a cupidez, a inveja menor, a intriga, o desejo contido, o egoísmo e o acacianismo como causa e repetição ilimitadas. No fundo, Eça riu-se do mundo que melhor conheceu, do ambiente, de si próprio. E fê-lo entre o idílio cosmopolita e a sala de estudo arranjada por Jacinto – ou seria por Alberto João Jardim? –, que tinha a um canto um molho de varapaus e no ar um intenso cheiro a favas.
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Ao rir-se do seu universo, Eça ria-se de todos os nossos fantasmas actuais. Até da estria contida do nosso Primeiro-Ministro. Porque o espalhafato de hoje é o risível de ontem. E de sempre.

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