sábado, 16 de Fevereiro de 2008

EPISÓDIOS E METEOROS
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Os voos da CIA… à força
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No sábado passado, abri o site do Público e li um título bombástico: “Voos da CIA: Presidente do Governo açoriano admite escala de aviões com prisioneiros em território nacional”. Sigo de imediato o link e verifico que o texto não está assinado (a fonte é a Lusa: “09.02.2008 - 09h26”). Repito o adjectivo “bombástico”, pois a notícia indiciava realmente um facto. E um facto que sugeria ser um facto novo. Escrevia-se no título da notícia: “(Carlos César) admite escala de aviões” e não “(Carlos César) admite a possibilidade da escala de aviões”. Há uma diferença enorme entre a primeira redacção e a segunda. A primeira cimenta uma realidade que o leitor vai querer inevitavelmente aprofundar – e abre, por isso mesmo, o link –; a segunda, ao invés, limita-se a repetir a já esgotada melopeia da probabilidade*.
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Só que, ao ler-se o desenvolvimento da notícia, o leitor sente-se defraudado. Transcrevo a fina articulação entre o texto do/a jornalista da Lusa e a chamada matéria de facto:
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“Em declarações ao programa "Diga Lá, Excelência", da Rádio Renascença e do PÚBLICO, na RTP2, Carlos César afirma desconhecer qualquer "documento que ateste de forma fidedigna" a passagem de aviões dos serviços secretos pela Base das Lajes, na ilha terceira.” E continua: "Em relação às questões que têm a ver com o trânsito na Base das Lajes ou em outros aeroportos portugueses de eventuais prisioneiros de Guantanamo, eu, como presidente do Governo regional, ignoro por completo um único documento que ateste de forma fidedigna que isso aconteceu", afirma o governante socialista na entrevista que será publicada na edição de domingo do PÚBLICO e transmitida no mesmo dia às 12H00 pela Rádio Renascença e à noite pela RTP2.”
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Depois deste registo inequivocamente afirmativo, segue-se o domínio das probabilidades que acaba por pôr em causa o conteúdo exposto no título da notícia:
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“César admite, "no domínio das probabilidades", que os aviões que transportaram prisioneiros em Guantanamo possam ter sido abastecidos de combustível "nos Açores ou no Continente", à semelhança do que acontece com aviões civis”. Ou seja: "No domínio das probabilidades, aqueles prisioneiros que lá estão [em Guatanamo] devem ter passado seguramente por algum aeroporto antes de lá chegar e, muito provavelmente, tal como passa a aviação civil que vai para aquela área fazendo abastecimentos em aeroportos no Atlântico, podendo fazê-lo nos Açores ou no Continente. Portanto, não rejeito que isso tenha acontecido", afirma.”
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E o resto da notícia continua a navegar ao ritmo dos mil e um juízos e apreciações. Justíssimos e às vezes caprichosos, como não podia deixar de ser. Mas sempre a partir da mesma premissa: “Se isso se passou…”.
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Não entendo a necessidade deste tipo de jornalismo. É mau até para a “causa” que o/a jornalista parece querer defender. Ao fim e ao cabo, os que ontem falavam em armas de destruição em massa no Iraque não são muito diferentes dos que hoje querem provar os voos ilegais da CIA à força. Num e noutro caso, pensa-se que a determinação consegue transformar, por magia, o desejo em verdade. Ou a ilusão em provas irrefutáveis. Alquimias bizarras. Ou apressadas. No mínimo. Seja como for, este tipo de processos traduz um modo de pensar do início deste século: aliar a instantaneidade do convencimento à simulação da prova. Um novo modo de convicção. Pós-ideológico, claro. Mas com ressonâncias que vêm doutros tempos.
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P.S. - *Na primeira página da edição em papel do Público (já no passado Domingo…), lia-se curiosamente: (Carlos César) “não afasta a possibilidade”.

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