sábado, 9 de Fevereiro de 2008

EPISÓDIOS E METEOROS
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Remodelação, Carnaval e abismo
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I
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A política quer-se esquemática e pragmática. A vitrine das ilusões serve-se fria. É por isso que a remodelação do ministério da saúde significou o fim de uma reforma possível e necessária. A fileira de Manuel Alegre (ala dramatúrgica da "esquerda") e de outros flamingos de asas não menos populistas (que ecoam vozes de protesto fácil) ficaram agora a rir-se. E é certo que o imobilismo está garantido até às eleições. Para a pasta da cultura, por sua vez, veio um jovem lavagante, bem-falante, cavaleiro de muitas liberdades e amante de caviar e do historiador Rosas. Os subsídios passarão a ter outro brilho e encanto. Sobrará o samba, o Carnaval e o estendal já menos húmido a pensar sobretudo em eleições. O ano de 2009 está próximo e já se sabia - todos os nossos comentadores o segredavam - que a política socrática era de "direita" (o povão adora estes esquematismos); agora juntou-se-lhe o caril que exala o tom de "esquerda". O nosso PM não é nada inocente. Vai ser o último a rir (e bem mais do que todos os outros). E fica, desde já, à espera do banquete. Também vamos lá: com Menezes, Jerónimo, Louçã e Portas... bem se pode dar ao luxo destes joggings. E de muitos mais.
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II
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Luís Reis Ribeiro referiu, na semana passada, no
Diário Económico que os economistas declaram o estado de recessão mundial, quando a economia do planeta não cresce para além dos 3% (em 2008, pensa-se que o crescimento andará pelo 4,8%).
É interessante reflectir sobre este abismo invertido que evoca a ideia de progresso (desenvolvida pelos iluministas e só estabilizada, como noção chave, a meados de oitocentos no Ocidente). Foi, aliás, a ilimitada crença no progresso que alimentou o pior (o mais terrível) e o melhor (o mais inesperado) na transição do século XX para o nosso.
Parece que a natureza humana precisa deste tipo de metáforas abismadas para sobreviver: cavernas (à moda de Platão), ilhas inexistentes (o ‘alhures’ significado pela ‘utopia’de More), as redes (malhas de armadura, prisão ou formas de comunicação), as profundezas sem fim (do centro do mundo de Verne aos deuses pré-romanos do Tártaro) e, já agora, a própria ideia de progresso: essa linha imaginária que se projecta num ininterrupto e contínuo crescimento sem fim. Como se isso fosse possível.
Leibniz e a música barroca de Bach representaram o fôlego divino de um modo mais encorpado, denso e envolvente. Menos linear, digamos. Mas igualmente dominante, galopante e crescente.
Até quando esta necessidade de sermos o que somos e, ao mesmo tempo, a sombra de um frágil e indomável gigante?
Ninguém o saberá. Mas a verdade é que Até sempre foi o melhor título de todos os romances de Vergílio Ferreira.

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