domingo, 6 de Janeiro de 2008

EPISÓDIOS E METEOROS
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Os fascismos de 01/01/08
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No dia de natal, dei com o meu irmão a rir por ter visto um actor a fumar no meio de um filme. Convenhamos: o meu irmão não é da idade dos meus alunos que nunca viram um debate político na televisão com toda a gente a fumar, moderador incluído. O meu irmão leva mais de meio século de aventura, em grande parte dominada pela quântica e por outros universos que nem me atrevo a designar. Aquele riso terá tido, portanto, uma única causa plausível: o contraste com algo que já não faz hoje parte da gramática normal da nossa vida.
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Este tipo de mudanças atravessa, de modo invisível, o modo como convivemos, como comemos, como comunicamos ou, tão-só, como olhamos. São mudanças que fazem parte desta nossa época que se vê a vi própria como um era revelatória. Apesar de existirem cada vez menos deuses – pelo menos aparentemente – a moldar as atitudes, gestos e práticas na larga maioria da sociedade.
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Fenómenos que (infelizmente) sempre existiram, como a pedofilia, quando amplificados no espaço público, acabam por condicionar comportamentos normais (há dias, um amigo dizia-me que tinha perdido o hábito de fazer festas na cabeça das crianças…). Este tipo de amplificação desproporcionada, expurgatória e “exemplar” (à moda dos regimes cruéis ou inquisitoriais) acaba por gerar formas de agir também desproporcionadas, expurgatórias e irracionalmente persecutórias. São elas, também, o gene destas chamadas mudanças invisíveis.
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Tal como os talibãs destruíram os Budas no Afeganistão, também hoje se retiram de filmes conhecidos os cigarros e as manchas de fumo. Em 2001, pouco antes do 09/11, o filme Backdraft de Ron Howard (de 1991!) foi amplamente condenado por activistas antitabagismo por mostrar bombeiros a fumar. A ironia tornou a militância ridícula, na medida em que a luta contra a catástrofe natural, de que o filme dava conta, era desvalorizada a favor do impacto tabágico. O mais importante, apesar da ironia, era, pois, a cega mensagem de interdição. E nada mais.
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O facto é que as pessoas gostam de proclamações que as acordem da letargia, que as animem, ou que as transformem em reguladoras de todos os males do planeta. As pessoas gostam de receitas fáceis, de milagres, de discursos em que tudo bata certo. As pessoas gostam de ter inimigos, fantasmas terríveis, bodes expiatórios que saciem as fragilidades, perdas e inconsistências. É da natureza humana. Muitas vezes não é “a causa” o que ‘está em causa’, mas sim o incontrolado ímpeto que leva as pessoas a ajuizar e a condenar objectos e práticas deste mundo com a mesmíssima lógica que terá inspirado, no limite, as “Noites de Cristal”.
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Eu deixei de fumar em Março de 1997 e, portanto, não sou parte interessada na grande revolução de 1 Janeiro de 2008. Nem nunca o seria. Porque o mais grave é perceber que, à medida que a liberdade parece consolidar-se na nossa vida pública e, fundamentalmente, na iniciativa de cada um de nós, mais estes fascismos invisíveis parecem despertar e imolar a nossa tentação democrática. E o pior é verificar que, neste sistema (determinista) de vasos comunicantes, o vaso fascizante se vai impondo com facilidade à singularidade expressiva.

1 comentários:

indomável disse...

Luis,

É bem verdade que os tempos correntes são cheios de um cinzento imaculado a imitar o branco, de um juizo perfeito sobre o que deveria ser e uma normatização de tudo o que deverá existir.
Em nome da perfeição se cometem os mesmo erros de sempre, só que ao contrário...
A norma de um grupo impera sobre todos, a coberto de uma imensa máquina publicitária que nos leva a pensar todos da mesma forma, beber todos o mesmo líquido e ter todos as mesmas visões.
Não gosto e faço uso da minha mente... às vezes