EPISÓDIOS E METEOROS
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A sempre adiada polémica
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A sempre adiada polémica
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Destaque: “Se Marques Mendes e Luís Filipe Menezes tivessem escrito romances como A Mancha Humana ou O Mar, de certeza que os respectivos inícios teriam sido outros. Seria qualquer coisa do género: “Coleman Silk, de 71 anos, deixou de ter 70 anos no dia do seu último aniversário” e “Foi na maré baixa que finalmente reapareceram os búzios”.
Destaque: “Se Marques Mendes e Luís Filipe Menezes tivessem escrito romances como A Mancha Humana ou O Mar, de certeza que os respectivos inícios teriam sido outros. Seria qualquer coisa do género: “Coleman Silk, de 71 anos, deixou de ter 70 anos no dia do seu último aniversário” e “Foi na maré baixa que finalmente reapareceram os búzios”.
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ei que a esta hora (em que escrevo) há um debate, porventura o único, entre Menezes e Mendes. Não o vejo por uma simples razão: é que o romance entre ambos começou do vazio, da espuma que reflui totalmente. Do nada. É um romance sem intriga, sem enredo, sem qualquer ponta de clímax.
Uma pessoa começa a ler um livro de Philip Roth, que não é nenhum acrobata ou prestidigitador, e sente, apesar de tudo, um outro frisson. Em A Mancha humana, as primeiras linhas confessam-nos que Coleman Silk, de 71 anos (ex-reitor de faculdade), tem um caso com a mulher da limpeza de apenas 34 anos. É muito mais interessante: a gente quer logo saber como é que a coisa começou e como é que a sedução se consegue revestir, às vezes, de roupagens tão inusitadas. Até um irlandês amante de Praga, tudo terras de boa cerveja, como é John Banville, inicia o seu romance O Mar de modo bem mais exaltante: “Foi no dia da estranha maré que os deuses partiram”. E a gente, é evidente, quer logo saber que maré foi aquela, se negra, alta, viva ou de Setembro! Mais: Querer-se-á saber que deuses emigraram e porquê.
Sem segredo, sem aventura, sem desvario e sem (pelo menos) uma questão maior não há história, não há suspense, não há fractura e nem sequer há voz. Quanto mais polémica.
Nos cenários da nossa vida política, a maior parte das narrativas que nos entra em casa sofre desta sensaboria. E não é por causa do “cinzentismo”, da “falta de causas”, do “discurso circular” ou da liturgia da cassete. Não. É muito pior. É porque, ao contrário do que – por exemplo – acontece na publicidade, aquilo que os políticos têm a dizer deixou de ter como alvo o público. O fim a atingir passou a ser outro: a maioria dos políticos fala para cumprir o tempo que geralmente lhes passa ao lado. Falam para legitimar a sua existência. O seu ‘estar ali’. Falam como puro verbo de encher, como diz o povo. Não como num ritual, ou numa performance, mas ao jeito de uma personagem que, à beira da falésia, repete cinco ou seis vezes o seu nome próprio. E escuta o eco para confirmar a praga.
Quer isto dizer que, se Mendes e Menezes tivessem escrito romances como A Mancha Humana ou O Mar, de certeza que os respectivos inícios – o chamado incipit – teriam sido outros. Seria qualquer coisa do género: “Coleman Silk, de 71 anos, deixou de ter 70 anos no dia do seu último aniversário” e “Foi na maré baixa que finalmente reapareceram os búzios”.
Coleman e as marés existiriam, com certeza. Mas não mais do que isso. Nada de mulheres da limpeza sentadas em vassouras mitológicas. Nada de deuses enfurecidos. E nada de mares irrequietos. Mas sobretudo: nada da infinita polémica de que é feita – ou deveria ser – a própria democracia.
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