quinta-feira, 25 de Outubro de 2007

EPISÓDIOS E METEOROS
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Livros que (não) mudam a vida
e
Destaque: “Há obras que me prenderam enquanto as li, mas que depois se esfumaram ou diluíram nos enigmas do alheamento e do esquecimento. E há obras que (ainda hoje) se fazem sentir no leme pelas influências, pelas proximidades e pela própria pele do sentido.”

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Em jeito de repto lançado por bloggers e amigos, nomeadamente pelo Francisco José Viegas e por Eduardo Pitta, fui, há dias, levado a imaginar uma lista de dez livros que não me teriam “mudado a vida”. Um desafio complicado, já se vê.
Comecei por referir que “às vezes, há livros maus que podem mudar a vida. O que nem sempre acontece com um livro (literariamente) bom”. Seguiu-se, depois, o breve inventário baseado na memória de leituras marcantes, sobretudo ao nível da contingência e do momento (não consigo ser indiferente a nada do que leio!), mas que acabaram por não afectar o curso posterior das minhas decisões e iniciativas.
Por outras palavras: a lista incorporou obras que me prenderam enquanto as li, mas que depois se esfumaram ou diluíram nos enigmas do alheamento e do esquecimento. O que significa que acabaram por não entrar na cristaleira dos cânones individuais (nessa categoria cabem todos os livros que, para o bem ou para o mal, ainda hoje me continuam a bater à porta mundana do ser e do fazer).
Nos dez livros seleccionados houve espaço para tudo: para livros que já pareciam ser conhecidos antes da respectiva leitura (A. Camus, A Queda ou A. Huxley, Também o Cisne Morre), para livros que se revelaram uma grande chatice ao invés das expectativas (P. Sollers, Femmes / Mulheres ou Y. Appery, Diabolus in Musica), para livros que – em tempos diferentes – estiveram na berra e que depois quase abraçaram o vazio (J. Kerouac, Pela Estrada Fora ou P. Süskind, O Perfume), para alguns ditos clássicos (T. Mann, Montanha Mágica ou I. Svevo, A Consciência de Zeno) e até para livros que me tocaram na altura e que depois se apearam de qualquer tipo de memória emotiva (C. Bobin, L´inespérée / A Inesperada ou A. Gide, Sinfonia Pastoral).
Enfim… a lista podia ter sido inteiramente outra, mas o exercício estava feito. E estava pronto a admirar-me, sob a forma de uma outra pergunta bem mais afirmativa: que romances é que acabaram realmente por mudar a minha vida?
A dificuldade será bem menor neste caso, porque de imediato se sentem no leme as influências, as proximidades e a própria pele do sentido. Contudo, é mais difícil arrumar em dez livros uma tal via láctea. Fiquemo-nos, pois, pelo esboço: um Malcolm Lowry como Através do Canal do Panamá, o Quijote do Cervantes ou o Jacques o Fatalista de Diderot acompanham-me como nuvem sob nuvem: a abertura dos itinerários e a possibilidade como acto. O que acontece, também, com as imagens em Português que saltam de Uma Abelha na Chuva de Carlos de Oliveira, de Lusitânia de Almeida Faria ou de Lisboa – Livro de Bordo de Cardoso Pires. Assinalo ainda a voragem que atravessa o final de Ulisses de Joyce, o início de O Fardo do Amor de McEwan ou algum Faulkner de O Som e a Fúria (sem esquecer os contos de Rubem Fonseca). Termino – deixando a arte narrativa para outros balanços – com a poética dos textos proféticos que durante anos e anos estudei e que parece ecoar na escrita luminosa de Amos Os (até mesmo no recente O Mesmo Mar).

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